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Pandemia abala parte de n√ļcleo nipo-brasileiro fiel a Bolsonaro no Jap√£o

No pa√≠s onde presidente teve 90% dos votos em 2018, lideran√ßa na crise de Covid19 levanta discuss√Ķes

Por Palmir Cleverson Franco em 31/07/2020 às 19:56:20
O presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, ao chegar ao aeroporto Kansai, na cidade de Izumisano, para participar do G20 realizado em Osaka - Charly Triballeau - 27.jun.19/AFP

O presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, ao chegar ao aeroporto Kansai, na cidade de Izumisano, para participar do G20 realizado em Osaka - Charly Triballeau - 27.jun.19/AFP

"Borusonaro" foi uma das palavras mais marcantes na mídia japonesa no m√™s de julho. Entre a suspeita de Covid-19, o diagnóstico da doen√ßa e o recente resultado negativo para coronavírus Jair Bolsonaro, cujo sobrenome é adaptado para "Borusonaro" na língua japonesa, foi notícia diversas vezes no país asi√°tico. Desde maio, a imagem do presidente derrete no exterior.

Na TV, proliferaram cenas do brasileiro em situa√ß√Ķes desaconselhadas por autoridades de saúde, como aglomera√ß√Ķes e sem o uso de m√°scara.

Ao noticiar o diagnóstico de coronavírus, a NHK, empresa de mídia estatal nipônica, por exemplo, destacou que Bolsonaro "diversas vezes descreveu a Covid-19 como uma gripezinha".

A declara√ß√£o, dada pela primeira vez em mar√ßo, foi a gota d"√°gua para o paulista Hundenbergui Furuya, 58, radicado no Jap√£o h√° 30 anos. Na época, o país asi√°tico j√° enfrentava uma onda de Covid-19.

"Votei nele, mas me arrependi. O primeiro que tinha de dar exemplo em uma situa√ß√£o assim era ele. Tanto n√£o se cuidou que foi infectado", diz Furuya, operador de m√°quinas, que mora na província de Gunma.

"No Jap√£o, m√°scara j√° era comum antes da pandemia, e agora quase todo mundo est√° redobrando os cuidados. No Brasil, h√° todo tipo de desculpa pra n√£o us√°-la: é desconfort√°vel, emba√ßa os óculos. Tem até desembargador rasgando multa, um absurdo. Quem exerce fun√ß√£o pública precisa dar exemplo".

O núcleo nipo-brasileiro bolsonarista é forte: 90% dos brasileiros residentes no Jap√£o escolheram o candidato nas elei√ß√Ķes de 2018. "No termômetro político aqui, a temperatura ainda é alta, mas h√° uma percep√ß√£o leve de queda por causa da pandemia", diz o paulistano Leandro Neves dos Santos, 36, que est√° h√° 14 anos no Jap√£o e administra uma p√°gina no Facebook voltada à comunidade brasileira no país.

"Noto que h√° eleitores arrependidos, muitas vezes influenciados pelas notícias na imprensa japonesa —os próprios japoneses t√™m criticado a postura de Bolsonaro. Preciso ser sincero e admitir essa tend√™ncia, é o que vejo. N√£o tenho político de estima√ß√£o, n√£o sou bolsonarista fan√°tico. Meu partido é o Brasil, como diz o presidente", afirma Santos, operador de empilhadeira, da província de Tochigi.

Ele considera que o governo federal tem tentado combater a crise, mas enfrenta entraves estruturais. Diz que a diferen√ßa entre os países é que no Jap√£o "n√£o tem politicagem" e que, no Brasil, "a briga política atrapalha tudo", mas se ressente da demora do presidente para nomear um novo ministro titular da Saúde.

Na p√°gina AfrodeksTV, o brasileiro incentiva seus 44 mil seguidores a evitar aglomera√ß√Ķes no Jap√£o. J√° no Brasil, diz, o contexto é diferente nos atos pró-governo. "Toda manifesta√ß√£o precisa de um líder. Bolsonaro é o líder. Se voc√™ pensar "meu povo est√° na rua, preciso ir para l√°", n√£o vejo uma postura errada dele, antes do diagnóstico. Mas sou suspeito, sou eleitor e apoiador", frisa

O brasiliense Rodrigo Gon√ßalves, 47, eleitor de Bolsonaro e h√° 24 anos no Jap√£o, também destaca a politiza√ß√£o da pandemia. Pondera que, enquanto no país asi√°tico o governo est√° preocupado apenas com a doen√ßa, no Brasil "querem imputar a culpa a alguém". "O Brasil est√° executando o que é possível, n√£o vejo descaso por parte de um ou outro governante."

Atualmente desempregado, ele vive em Hamamatsu, a cidade "mais brasileira" do arquipélago e que recebeu Bolsonaro aos gritos de "mito" em 2018. Nos últimos dias, o município registrou 65 novos casos de coronavírus, totalizando 87 até segunda (27). "Assustador, né? [Mas] vou dizer que é culpa do governador?"

Embora considere alto o número de infec√ß√Ķes na cidade, o brasileiro conta que n√£o mudou nada em sua rotina. "Dentro do meu universo n√£o é essa bitola√ß√£o. N√£o uso m√°scara. Detesto esse 'trem', porque falta ar. Frequento lugares como sempre. No meu conhecimento, n√£o acredito que eu v√° pegar o vírus."

M√°scaras e distanciamento social s√£o recomenda√ß√Ķes da OMS (Organiza√ß√£o Mundial da Saúde), mas Gon√ßalves diz n√£o confiar no órg√£o. Também questiona se a institui√ß√£o internacional tem mais conhecimento da realidade do Brasil do que o ministro da Saúde do governo Bolsonaro.

Quando lembrado pela reportagem de que o país est√° sem um titular na pasta, diz que "n√£o precisa ser um ministro da Saúde". "Pode ser um secret√°rio, alguém aí respons√°vel."

Para a paulista Heloisa Sakamoto, 48, h√° 12 anos instalada na província de Kanagawa, "h√° quem se desespere, inflando informa√ß√Ķes e h√° quem tente minimizar, desconsiderando o número de mortes [no Brasil]". "E h√° quem tente negar a própria pandemia, muitas vezes inspirado por Bolsonaro. É irrespons√°vel, para dizer o mínimo."

Brasil e Jap√£o tomaram rumos diferentes na crise. Segundo dados da Universidade Johns Hopkins, em 157 dias —do registro do primeiro caso até sexta-feira (31)—, o Brasil registrou 2,6 milh√Ķes de infec√ß√Ķes e 91 mil mortes. O Jap√£o, por sua vez, contabilizou 36 mil casos e 1.008 mortes em 192 dias — também até sexta.

Ainda que o país asi√°tico n√£o tenha determinado um "lockdown", adotou restri√ß√Ķes no come√ßo da crise e, após flexibilizar as medidas, no final de maio, recomendou à popula√ß√£o que aglomera√ß√Ķes e espa√ßo fechados fossem evitados. Atualmente, no entanto, o país atravessa novas ondas de contamina√ß√Ķes.

"H√° pontos importantes que valem para os dois. Primeiro, governantes precisam dar o exemplo. Segundo, ouvir os especialistas. Terceiro, controlar a curva antes de pensar em reativar a economia. Quarto, ajudar os cidad√£os a atravessar a crise", diz a paulista Carmen Tsuhako, 51, h√° 29 anos no Jap√£o

É nos tempos de crise que se v√™ quem sabe governar. Bolsonaro n√£o sabe", acrescenta a oper√°ria, antibolsonarista e moradora de Toyohashi, na província de Aichi.

À dist√Ęncia, enfrentando 12 fusos de diferen√ßa para acompanhar o que acontece no Brasil, a imagem é de "um navio à deriva", define o paulista Edson Assato, 49, em Yokohama e desde 2004 no Jap√£o. "A situa√ß√£o é catastrófica. Antes de Bolsonaro ser eleito, eu j√° estava temeroso, mas ele superou todas as expectativas. É surpreendente que ainda tenha tanto apoio da comunidade brasileira aqui."

O brasilianista Ryohei Konta, pesquisador do Ide-Jetro (Institute of Developing Economies - Japan Trade Organization), que j√° foi professor visitante da USP, levanta a possibilidade de que, por se sentirem mais seguros no Jap√£o, descendentes de japoneses que apoiam Bolsonaro pensem que é melhor priorizar a economia e, por isso, descartam parar devido à pandemia.

"Voc√™ pode morar décadas no Jap√£o, mas sempre ser√° visto como "burajirujin" [brasileiro]. É assim que a sociedade japonesa te v√™", analisa a antropóloga Regina Yoshie Matsue, professora da Unifesp (Universidade Federal de S√£o Paulo), que pesquisa migra√ß√Ķes e saúde

"Isso intensifica os marcadores da identidade, o que torna compreensíveis as discuss√Ķes t√£o marcantes sobre política brasileira, inclusive o eco do discurso conservador "Brasil acima de tudo" a milhares de quilômetros de dist√Ęncia"."

Segundo Matsue, os relatos dos imigrantes s√£o um reflexo da própria sociedade brasileira, de críticas ao discurso negacionista, de antibolsonaristas a bolsonaristas arrependidos, de críticos e fiéis.

"É um "little Brazil" no Jap√£o."

Fonte: Folha de S√£o Paulo

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