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Do São Paulo ao Oriente: como atacante brasileiro defendeu Japão na Copa 98

Até o surgimento da J-League, em 1993, e a ida de Zico ao país, Wagner teve de conviver com resquícios de amadorismo

Por Palmir Cleverson Franco em 11/09/2020 às 17:47:54
Wagner Lopes em ação pela seleção do Japão: ex-atacante do São Paulo jogou a Copa de 1998 pelo país asiático Imagem: Reprodução

Wagner Lopes em ação pela seleção do Japão: ex-atacante do São Paulo jogou a Copa de 1998 pelo país asiático Imagem: Reprodução

De promessa do São Paulo, como reserva de Careca, ao futebol japonês ainda marcado pelo amadorismo em plena década de 1980. Foi dessa forma que o ex-atacante Wagner Lopes iniciou uma trajetória marcada pela disputa de uma Copa do Mundo com a seleção do Japão, justamente a primeira do país asiático.

Para isso, Wagner se naturalizou japonês em 1997. Sem esperar, foi convocado para os últimos jogos das Eliminatórias do Mundial 1998. Com a vaga garantida, virou um dos heróis do país, com direito a uma carreata de 70 quilômetros, exatos dez anos depois de deixar o Morumbi.

Natural de Franca, no interior de São Paulo, Wagner fez parte dos time do São Paulo em 1986 e 1987, conhecidos por Menudos do Morumbi, repletos de jovens promessas. Um dos atletas experiente do grupo era o zagueiro Oscar, responsável direto pela ida de Wagner ao Japão, aos 17 anos.

"Apareceu uma proposta para ele. E pediram para apresentar um jovem para ir junto. Falaram as características que queriam, e ele indicou. Depois foram ver um jogo meu e gostaram. Era para ficar duas, três temporadas. Mas acabei me adaptando muito bem, fiquei 17 anos, a carreira toda praticamente", disse Wagner.

Até ser convocado à seleção, porém, o processo foi longo. Primeiro, foi preciso se adaptar a um país que ainda engatinhava em relação ao profissionalismo. Segundo Wagner, muitos companheiros do Nissan Motors, seu primeiro clube, conciliavam a carreira de jogador de futebol com outras profissões.

"O futebol era praticamente amador. Só os brasileiros eram profissionais. O restante era amador. Se tivesse treino à tarde, trabalhavam de manhã. Se tivesse treino de manhã, trabalhavam à tarde. Era uma jornada dupla para quem era japonês", contou Wagner, que, meses depois, chamou um roupeiro do São Paulo para trabalhar no país, já que essa função não existia por lá.

Até o surgimento da J-League, em 1993, e a ida de Zico ao país, Wagner teve de conviver com resquícios de amadorismo. E ainda longe da família, que ficou toda no interior de São Paulo. Um ano antes do campeonato nacional do Japão, já como atacante do Kashiwa Reysol, o paulista pensou pela primeira vez em se naturalizar japonês.

"Foi quando meu filho nasceu, em 1992. Já eram cinco anos no país, eu falava bem o idioma, estudava muito, estava adaptado. Em 1993, o Reysol contratou o Careca, e ele me falou sobre isso, que eu abriria uma vaga para um estrangeiro se conseguisse a naturalização. Então, dei entrada nos papéis", lembrou Wagner, que casou com uma neta de japoneses anos antes.

Passaporte e Copa

O trâmite para se naturalizar durou quatro anos e incluiu provas escritas e orais, além do pagamento de impostos, como um cidadão japonês. Por causa de uma troca de clube — Wagner passou a defender o Honda em 1995 —, o processo teve de ser recomeçado. A demora, porém, valeu a pena. Sem esperar, o atacante foi convocado para a reta final das Eliminatórias.

Àquela altura, o Japão carregava um trauma por quatro anos, depois de perder a vaga na Copa de 1994 com um gol sofrido contra o Iraque no último minuto. A tão sonhada ida ao Mundial aconteceu com sofrimento, por meio de um gol de ouro diante do Irã, em uma vitória por 3 a 2, de virada.

"Conseguimos a classificação à Copa, em Doha. Foi uma festa grande depois. Quando chegamos, parecia feriado. Fiquei sem pagar conta em restaurante por uns dois anos. Queria pagar, mas não deixavam [risos]. Eles agradeciam, é um reconhecimento muito grande até hoje", ressaltou.

Wagner participou dos três jogos do Japão na Copa da França. Mesmo com derrotas para Argentina, Croácia e Jamaica, a campanha contou com uma assistência do brasileiro para o único gol dos japoneses, diante da seleção jamaicana.


O ex-atacante do São Paulo esteve ainda na Copa América de 1999, quando o Japão atuou como convidado no Paraguai. Dois anos depois, entretanto, uma grave lesão no joelho impediu Wagner de defender o Japão na Copa 2002, como anfitrião. Meses depois, aos 33 anos, ele encerrou a carreira.

Japão segue vivo

Wagner vive hoje em uma cidade próxima à capital paulista, ao lado da esposa e dos dois filhos, ambos nascidos no Japão. A passagem marcante de 17 anos como jogador, somada a outras duas em 2012 e 2017, como auxiliar técnico e treinador, respectivamente, deixou marcas profundas.

"Eu tenho muitos amigos e uma identificação muito grande. Todos os dias eu falo japonês com alguém. Gosto muito da cultura japonesa. Conheci minha esposa no Japão, ela é neta de japoneses, ainda comemos comida japonesa duas vezes por semana. Aqueles costumes, de chegar em casa e tirar o sapato, a gente não consegue esquecer", contou.

Como treinador, o último trabalho de Wagner no Brasil foi à frente do Botafogo-SP, até fevereiro. Antes, o ex-atacante comandou Atlético-GO, Paraná Clube, Sampaio Corrêa, Bragantino, Goiás, Criciúma, São Bernardo, Comercial e Paulista.

Fonte: Uol

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