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A história dos japoneses escravizados por portugueses e vendidos pelo mundo mais de 400 anos atrás

Por Palmir Cleverson Franco em 14/09/2020 às 19:57:31

Em 1585, um menino japon√™s de oito anos de idade foi raptado e vendido como escravo a Rui Pérez, um comerciante portugu√™s que atuava em Nagasaki. O menino, que ficou conhecido como Gaspar Fernandes, nasceu em Bungo (atual província de Oita, no sul do Jap√£o) e foi o primeiro de cinco escravos asi√°ticos que Pérez adquiriria nos anos seguintes.

Pesquisadores acreditam que o menino tenha sido raptado por outro japon√™s, pois era comum que os próprios japoneses capturassem pessoas para vender aos portugueses na regi√£o. Junto à família de Pérez, Gaspar passou a atuar como um servi√ßal. Ele aprendeu portugu√™s e espanhol e acabou levado com a família para Manila, nas Filipinas, onde Pérez foi perseguido e condenado por praticar o judaismo em segredo.

O comerciante foi enviado ao México para ser julgado pela Inquisi√ß√£o e acabou morrendo dois dias antes de atracar no porto de Acapulco.

Em 2013, o pesquisador portugu√™s Lúcio de Sousa, professor da Universidade de Estudos Estrangeiros de Tóquio, concluiu o quebra-cabe√ßas da vida de Gaspar e outros escravos japoneses de Pérez ao descobrir um documento nos Arquivos Gerais da Na√ß√£o no México.

"Passei um m√™s no México, pesquisando horas por dia, até que o registro do transporte do Gaspar e outros escravos caiu nas minhas m√£os. Eu sabia que n√£o estava apenas atr√°s de um simples documento, eu estava lidando com a vida de pessoas que existiram de verdade, foram exploradas e esquecidas", revelou à BBC News Brasil.

Mapa tra√ßa as rotas comerciais por onde os portugueses transportavam os escravosDireito de imagem ARQUIVO LÚCIO DE SOUSA - Image caption Mapa tra√ßa as rotas comerciais por onde os portugueses transportavam os escravos

Gaspar foi um entre milhares de crian√ßas, adultos, homens e mulheres capturados no Jap√£o entre o fim do século 16 e o início do século 17. As vítimas eram raptadas nas camadas mais desfavorecidas da sociedade, depois eram acorrentadas e empurradas aos navios. Os japoneses acabavam for√ßados a deixar o país e suas famílias para sofrer abusos e torturas em terras estrangeiras.

N√£o h√° dados sobre quantos japoneses foram escravizados e exportados para o mundo durante uma lacuna de pelo menos cinquenta anos. Pesquisadores estimam que milhares de japoneses foram submetidos a este mercado, que funcionava de forma ilegal e velada no sul do Jap√£o.

"O mercado de escravos n√£o come√ßou com uma estrutura organizada. Alguns eram raptados, outros se vendiam por causa da fome extrema e da guerra. Tinham japoneses que se vendiam para escapar de situa√ß√Ķes ou para dar o dinheiro a família, acreditavam que, quando chegassem a Macau, conseguiriam fugir. Muitos foram enganados e n√£o receberam dinheiro algum", explica Lúcio.

Apesar de ser no mesmo século do início da coloniza√ß√£o portuguesa no Brasil, n√£o h√° registros de escravos japoneses enviados ao maior país da América Latina.

"Os portugueses estavam mais interessados em enviar escravos africanos ao Brasil, por causa da for√ßa bra√ßal. Os asi√°ticos eram utilizados mais para tarefas domésticas. Em Lisboa, muitas famílias exibiam seus escravos japoneses como produtos importados."

Portugueses em solo japonês

Os portugueses foram os primeiros europeus a entrar em contato com o Jap√£o, em 1543, depois que uma tempestade fez um navio chin√™s com comerciantes atracar na Ilha de Tanegashima, na província de Kagoshima (sul do Jap√£o).

O comércio de escravos japoneses só come√ßou mais de uma década depois, quando os portugueses se instalaram em Macau e uma rota comercial para Nagasaki foi estabelecida.

Professor Lúcio de Sousa, da Universidade de Estudos Estrangeiros de TóquioDireito de imagem ARQUIVO PESSOAL - Image caption - Professor Lúcio de Sousa, da Universidade de Estudos Estrangeiros de Tóquio

Em solo japonês, os portugueses trouxeram coisas novas, como as armas de fogo e o cristianismo.

"Os portugueses eram fundamentais para a economia do Jap√£o na época, pois intermediavam o comércio com os chineses. Quando j√° n√£o tinham mais serventia, pois podiam ser substituídos economicamente pelos holandeses e outros grupos, foram expulsos", conta Lúcio.

Os padres jesuítas come√ßaram a converter japoneses e alguns "daimyos" — os senhores feudais que detinham o poder no Jap√£o —, se tornaram católicos por interesses diversos.

"Os senhores feudais se convertiam n√£o apenas pelo aspecto religioso. Eles estavam interessados nas importa√ß√Ķes de produtos militares trazidos pelos portugueses, especialmente materiais para fazer pólvora", explica a pesquisadora na √°rea, Mihoko Oka, professora da Universidade de Tóquio.

Mihoko Oka, professora da Universidade de Tóquio e especialista em história do Jap√£o nos séculos 16 e 17Direito de imagem ARQUIVO PESSOAL - Image caption Mihoko Oka, professora da Universidade de Tóquio e especialista em história do Jap√£o nos séculos 16 e 17

Os escravos em Lisboa

O fortalecimento do catolicismo no Jap√£o culminou em um momento histórico em 1582, quando quatro meninos japoneses partiram de Nagasaki para uma miss√£o jesuíta na Europa. O evento, que ficou conhecido como a "Miss√£o Tensho", levou garotos de 13 e 14 anos para conhecer reis, bispos e o papa Gregório 13¬ļ em Roma.

"Quando os meninos passaram pela Espanha e It√°lia, as pessoas saíram curiosas às ruas. Todos queriam ver japoneses pela primeira vez. Quando eles chegaram em Lisboa, no entanto, ninguém se interessou. A popula√ß√£o local j√° conhecia os japoneses, eles eram escravos, estavam inseridos nas comunidades locais", conta Lúcio.

Os registros mostram que, pelo menos uma década antes de os garotos japoneses mission√°rios pisarem em Lisboa, j√° havia japoneses residentes no país.

"O registro mais antigo é de Jacinta de S√° Brand√£o, uma escrava japonesa que casou na Igreja Concei√ß√£o em Lisboa, em 1573, com Guilherme Brand√£o, que também foi um escravo japon√™s. Jacinta é a primeira mulher japonesa a morar em Portugal de que se tem conhecimento", revelou.

Registro do livro de casamento da igreja Concei√ß√£o em Lisboa, de 1573. Documento traz o nome de Jacinta de S√° Brand√£o, a primeira mulher japonesa a viver na regi√£o que se tem conhecimentoDireito de imagem ARQUIVO LÚCIO DE SOUSA - Image caption Registro do livro de casamento da igreja Concei√ß√£o em Lisboa, de 1573. Documento traz o nome de Jacinta de S√° Brand√£o, a primeira mulher japonesa a viver na regi√£o que se tem conhecimento

A quest√£o das escravas mulheres é particularmente delicada, pois muitas eram vendidas com finalidades sexuais. Meninas pequenas acabavam raptadas, exportadas para Portugal e outros países e for√ßadas a passar pelas m√£os de v√°rios homens.

"A escravatura ainda é vista sob uma ótica masculina e machista. Em Nagasaki havia bordéis chocantes com escravas coreanas. Os homens escravos n√£o passavam pelo que as mulheres eram submetidas. Foi chocante compreender isto, o quanto as mulheres s√£o colocadas de fora do discurso da escravatura", diz.

Expulsos do Jap√£o

Quem acabou com a "farra" dos portugueses foi Toyotomi Hideyoshi, um poderoso senhor de guerra, conhecido por unificar o Jap√£o.

Foi em 1587 que ele soube, através de um subordinado, que os portugueses escravizavam milhares de japoneses na regi√£o de Kyushu e os enviavam para fora do país.

O líder japon√™s ficou abismado com a notícia e, no mesmo ano, fez uma expedi√ß√£o militar para Nagasaki que culminou no banimento dos padres.

"Ele ficou chocado com o domínio católico sob o apoio do cl√£ Omura, depois que o 'daimyo' Sumitada Omura se tornou o primeiro senhor feudal crist√£o. No ano seguinte, Hideyoshi usou seu comandante militar, Todo Takatora, para recuperar o território ao Jap√£o", conta o professor especializado em história do Jap√£o Tatsuo Fujita, do Departamento de Educa√ß√£o da Universidade de Mie.

Fujita acredita que a expans√£o do catolicismo trouxe preocupa√ß√Ķes maiores para Hideyoshi.

"Ele temia que o próximo passo após a convers√£o religiosa fosse a coloniza√ß√£o. Podemos supor que ele sabia do Tratado de Tordesilhas, a divis√£o de territórios entre Portugal e Espanha na América do Sul, ocorrido quase um século antes."

O mercado de escravos continuou mesmo após a sua proibi√ß√£o por lei em 1590 e n√£o incomodou apenas o líder do Jap√£o, mas a própria estrutura da "Companhia de Jesus", como era chamada a ordem religiosa. A captura e venda de numerosos escravos japoneses afetava negativamente a imagem do catolicismo.

Ilustra√ß√£o sobre a presen√ßa de portugueses em Nagasaki no século 16Direito de imagem ARQUIVO LÚCIO DE SOUSA - Image caption Ilustra√ß√£o sobre a presen√ßa de portugueses em Nagasaki no século 16

"O primeiro a tentar parar o comércio de escravos japoneses foi o Rei Sebasti√£o, no início da década de 1570. No fim da década de 1590, o bispo do Jap√£o, Dom Luís de Cerqueira, tomou medidas para coibir este mercado", conta a professora Mihoko Oka.

O bispo agiu em uma reuni√£o fatídica, ocorrida com as lideran√ßas da Companhia de Jesus em Nagasaki, em 1598. A igreja deixou claro o repúdio ao comércio de escravos, que funcionava de maneira ilegal e atacava a moral religiosa. Ficou decidido que os envolvidos seriam punidos com multas, excomunh√£o e n√£o teriam licen√ßas para levar japoneses para fora do país.

No entanto, a escravid√£o persistiu no início do século 17, quando os católicos j√° estavam sendo perseguidos e massacrados. Os portugueses acabaram expulsos do Jap√£o na década de 1630, sob o regime rigoroso do xogunato Tokugawa. O país entrou em um período de controle severo de influ√™ncias estrangeiras, que persistiu por mais de 200 anos.

Fonte: BBC News Brasil

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