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Quem foram os Bosozoku, tribos rebeldes de motoqueiros 'vida loka' do Jap√£o

Embora os bosozoku estejam desaparecendo, o estilo ficou na memória japonesa.

Por Palmir Cleverson Franco em 02/10/2020 às 19:27:18
Cena do filme "High & Low"

Cena do filme "High & Low"

Um território historicamente dominado pelos Mugen e reivindicado pela fam√≠lia Amamiya transformou-se na √°rea "S.W.O.R.D.", disputada por outros cinco cl√£s: S de Sannoh Rengokai, W de White Rascals, O de Oya Kou, R de Rude Boys e D de Daruma Ikka. Fosse essa a simples sinopse, a história lembraria sagas estilo "Game of Thrones".

Acrescente-se um toque "Velozes e Furiosos: Desafio em Tóquio" e o imagin√°rio de gangues juvenis japonesas sobre duas rodas: eis a fórmula de "High&Low", que entrou no cat√°logo da Netflix japonesa no fim de setembro. Iniciada em 2015, a franquia, que inclui filmes, livros, mang√°, série e spin-off, é um fenômeno deste lado do mundo -- a estreia de "High&Low O Filme" (2016), por exemplo, mobilizou especiais em 143 cinemas em todas as 47 prov√≠ncias japonesas.

"Bosozoku" é uma das palavras que pairam na atmosfera do universo "High&Low". O termo, que pode ser traduzido como "tribo de dire√ß√£o perigosa", é uma subcultura de gangues de jovens japoneses, famosas nas décadas de 1980 e 1990 por pilotarem scooters e motos modificadas imprudentemente — ou, como bem definiu o influenciador brasileiro Sky Yabai, os "vida loka" do Jap√£o.

Bosozoku eram adolescentes e jovens (entre 16 e 19 anos), que dirigiam motocicletas estilizadas em bando, com escapamentos barulhentos e antigos s√≠mbolos imperiais japoneses, em alta velocidade ou ziguezagueando, a fim de provocar badernas nas estradas -- e que, na disputa por territórios, portavam armas como facas, tacos de beisebol ou tubos de metal para brigas.

A volta do estilo "boso" é interessante na fic√ß√£o pois, na realidade, o fenômeno vem desaparecendo desde a década de 2000, tornando-se um tipo de lenda urbana no Jap√£o. Em 1982, ano-auge da popularidade dos Bosozoku, estimava-se pelo menos 42,5 mil membros de gangues de motociclistas no Jap√£o; em 2018, segundo relatório da Ag√™ncia Nacional de Pol√≠cia do Jap√£o, 146 grupos ainda estavam ativos, totalizando 6.286 membros -- 49,4% deles eram jovens de até 20 anos. Ao longo de 2018, o pa√≠s registrou cerca de 28 mil reclama√ß√Ķes referentes a gangues de motociclistas.

Tribos rebeldes

Na década de 1950, surgiram as primeiras gangues de jovens motoqueiros no Jap√£o. Eles se definiam como "otokichi" (auto bike mania), mas a imprensa os rotulou como "kaminari-zoku" (tribo dos trov√Ķes), devido ao som estrondoso dos escapamentos, como conta o antropólogo Ikuya Sato no livro "Kamikaze Biker" (The University of Chicago Press, 1991). Nos primeiros tempos, as transgress√Ķes dos motoqueiros se limitavam a infra√ß√Ķes das leis de tr√Ęnsito.

A partir da década de 1960, as motos se popularizam no arquipélago, assim como as gangues, atraindo jovens de diferentes segmentos da sociedade. Elas passaram a ser referidas como "circuit-zoku", "mach-zoku" e "thrill-zoku", que j√° se engalfinhavam em confus√Ķes e incidentes, destruindo carros e constru√ß√Ķes. Em 1972, lembra Sato no livro, 1.104 jovens motoqueiros foram presos por provocar baderna na esta√ß√£o de trem de Toyama. Após o incidente, batizado de "Toyama Jiken", a imprensa japonesa cunhou a express√£o "bosozoku".

Em 1973, estimava-se 12,5 mil membros de gangues; em 1981, o n√ļmero saltou para 40,6 mil. Às "simples" infra√ß√Ķes iniciais se somaram a√ß√Ķes mais violentas. Foram incorporados s√≠mbolos como o selo do cris√Ęntemo imperial e o sol nascente, que remete aos tempos imperiais do Jap√£o, que ocupou a Coreia e a China.

Segundo Sato, os adolescentes das gangues buscavam um certo estilo de vida transgressor, uma juventude transviada que queria se divertir infringindo regras. Causar tumulto nas ruas (e ser destacado na imprensa do dia seguinte) era como ser laureado um "herói do s√°bado à noite", diz o livro. Ser bosozoku era um tipo de rito de passagem para a vida adulta -- para uns, a rebeldia passou, mas desembocou na m√°fia, a Yakuza.

"Hoje n√£o sou mais Yakusa, sou só Hooligan", diz Kazuhiro Hazuki, ex-l√≠der da gangue Narashino Specter, no document√°rio "The setting sun: the history and present of Bosozoku" (2015). Os primeiros l√≠deres das gangues, como Black Emperor, Kira Rengo e Number One, j√° passaram dos 60 anos. Hoje na casa dos 40, Hazuki diz que seus dias de motoqueiro louco ficaram para tr√°s. "Bosozoku é história", definiu ao jornal The Japan Times, que reportava o lan√ßamento de outro document√°rio, "Sayonara Speed Tribes" (2012), do produtor norte-americano Jamie Morris, radicado em Tóquio.


Grupo de Bosozoku

Os tempos mudaram, os jovens mudaram e as leis também. Um dos maiores motivos indicados para o decl√≠nio dos bosozokus é o endurecimento das leis japonesas de tr√Ęnsito, principalmente após a nova lei de 2004. A prov√≠ncia de Aichi, um dos maiores redutos de motoqueiros, viu o n√ļmero de membros de gangues cair de 22 mil, em 2002, para 1.900, em 2006.

Na lei de 2020, dirigir agressivamente, com manobras perigosas de ultrapassagem e freadas bruscas, por exemplo, podem render multa de até 500 mil ienes (cerca de 26 mil reais) e tr√™s anos de pris√£o. Dirigir perigosamente nas estradas, inclusive for√ßando outros ve√≠culos a parar nas vias expressas, pode valer multa de 1 milh√£o de ienes (mais de 50 mil reais) e cinco anos de pris√£o.

Estilo boso

Embora os bosozoku estejam desaparecendo, o estilo ficou na memória japonesa. A cultura de customiza√ß√£o, por exemplo, se disseminou entre motos e carros. Um tipo de uniforme das gangues, conhecido como "tokko-fuku", também foi incorporado pela cultura pop: s√£o macac√Ķes, estilo militar ou de oper√°rios de f√°bricas, adornados com kanjis (caracteres da l√≠ngua japonesa). Além de slogans rebeldes, agora h√° modelos personalizados com frases poéticas e até cita√ß√Ķes de animes, como a série "Love Live!", reportou o jornal The Japan Times.

"Atualmente, os bosozokus n√£o s√£o mais temidos como antigamente. Os jovens das gangues pilotam scooters, n√£o mais motos. [...] Os integrantes agora dirigem por becos e ruelas, ficando longe da pol√≠cia. Muitos dizem que n√£o é nada mais que uma tentativa de reviver algo que j√° se foi e, hoje, o bosozoku é uma lenda urbana japonesa, que existe mais como estilo do que como subcultura de fato", escreveu Arun Singh Pundir, no site especializado Hot Cars.

H√° 20 anos no Jap√£o entre idas e vindas, o paulista Alex Yamada, 38, teve seus dias breves ao lado de bosozokus. Fascinado por motos desde a inf√Ęncia, ele rodou com amigos motoqueiros na adolesc√™ncia, em Toyota (Aichi). De volta ao Brasil, aos 18, montou uma oficina de aerografia, técnica de ilustra√ß√£o e pintura para tanque de motos e capôs de carros em Natal, no Rio Grande do Norte. Aos 24, voltou ao Jap√£o, casou com uma japonesa (também f√£ de motos) e mergulhou de vez nesse universo: abriu a Premier999, misto de oficina de customiza√ß√£o e concession√°ria, em Nisshin (Aichi).


As roupas estilo boso

Primeiro brasileiro a montar motos estilo Chopper, modificadas com a dianteira alongada, ele ficou conhecido como Alex Chopper. Entre seus clientes, ainda h√° bosozokus, "poucos, mas h√°", diz. "O estilo rebelde dos bosozokus ainda é atual. Por mais bonzinho que o cara seja, ele se transforma se senta a bunda em uma moto, ele se sente poderoso. É um estilo, uma pose, mas mais um sentimento", define Chopper, que dirige uma Harley-Davidson modelo Ultra Classic 2008 ("Harley é a Ferrari das motos", diz) e um caminh√£o Toyota ToyoAce, para transportar os pedidos dos clientes.

Desde 2004 no Jap√£o e instalado em Yokohama, o paulista Edson Assato, 49, também se interessa por motos desde a inf√Ęncia -- a lembran√ßa de filmes antigos como "The wild one" (1953), estrelado por Marlon Brando, e "Easy rider" (1969), dirigido por Dennis Hopper, o inspira até hoje. "'Born to be wild', de Steppenwolf, trilha sonora de 'Easy rider, é um dos hinos da minha vida." No dia a dia, Assato dirige uma lambreta; para viajar, pilota uma Yamaha Dragstar 1100 cilindradas customizada. "[Dirigir moto] d√° uma sensa√ß√£o de liberdade. Eu me sinto como se estivesse flutuando no ar", diz ele, que frisa que n√£o gosta de correr, apenas andar, ver a estrada e sentir o vento no rosto.

Assato e Chopper se conheceram por indica√ß√£o de amigos comuns e, nos tempos de Orkut, tornaram-se também amigos. Juntos, eles decidiram fundar o motoclube Bad Influence em 2008. A liga come√ßou como um grupo de motoqueiros latino-americanos radicados no Jap√£o e depois se expandiu para o Brasil -- a filial fica em Monte Alto, em S√£o Paulo. "O clube cresceu tanto que n√£o sei quantos membros temos hoje", conta Chopper, o presidente, que estima que 80% dos integrantes sejam brasileiros e 20% japoneses; h√° homens e mulheres. Segundo Assato, a ideia é viajar junto e confraternizar, "longe de confus√£o" e dos bosozoku remanescentes, com quem às vezes s√£o confundidos. "Nossa rebeldia é contra as diferen√ßas, os contrastes sociais do mundo", diz.

Anualmente, o clube realiza encontros de confraterniza√ß√£o, como churrascos e campings. Desde 2009, eles integram iniciativas solid√°rias no Jap√£o: visitam asilos, onde vivem velhos japoneses sozinhos; promovem campanhas de arrecada√ß√£o para causas sociais; arrecadam brinquedos e v√£o distribu√≠-los em orfanatos, vestidos de Papai Noel (sem deixar a estilizada jaqueta de couro de lado). A a√ß√£o nos orfanatos acontece sempre no m√™s de dezembro. A a√ß√£o foi originalmente organizada pelos Gaijin Riders, um fórum de motociclistas estrangeiros no Jap√£o, onde n√£o se celebra o Natal.


Alex Yamada durante ação em orfanato

"Uma vez no orfanato, uma crian√ßa japonesa me disse: quando eu crescer, quero ser igual a voc√™, andar de moto, ter esse estilo. Foi emocionante e nunca esqueci. Quer dizer, na verdade, n√£o é 'm√°', é uma boa influ√™ncia", conta Assato. "Bad Influence era mais para provocar impacto. 'Good Influence' ia ficar muito tosco. Imagina, uma galera com cara de mau, pilotando 'umas puta' m√°quinas dessas, n√£o ia combinar", brinca Chopper. "A pose é de mau, mas a ideia é do bem.".



Fonte: Uol

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