A arte milenar do shakuhachi, a tradicional flauta japonesa

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A arte milenar do shakuhachi, a tradicional flauta japonesa

Uma tradição que teve suas origens na China, o shakuhachi foi introduzido no Japão no século VII, de forma ainda primitiva, e a primeira pessoa que se tem notícia que tocou o instrumento foi Syoutoku Taishi, no século VIII. “O shakuhachi era exclusividade dos monges budistas durante todo o período dos samurais, e o ato de soprar o instrumento era tido como uma meditação, e não apenas soprar uma música. Soprar shakuhachi a fim de compartilhar o bem com todos e, desta forma, seguir o caminho de Buda”, comenta Akio Yamaoka, 80, o último mestre japonês em atividade que ensina a construir e a tocar o shakuhachi.

Nascido na província de Akita, no nordeste do Japão, ele imigrou com seus pais e irmãos, em 1955 para o Brasil. Em 1974, em São Paulo, começou a estudar shakuhachi, a flauta japonesa com o mestre Sagara Youzan.

O instrumento de bambu tradicional do Japão, além da música é terapêutico para quem ouve. Ele chegou ao Brasil por meio dos imigrantes japoneses, em 1808, ou seja, há 214 anos. “Existem cerca de 600 espécies de bambu no mundo, mas o shakuhachi é feito com um tipo chamado ‘madake’, que significa ‘verdadeiro bambu’. Ele possui uma qualidade muito rígida e paredes grossas, o que dá ao instrumento qualidade e profundidade no som. Essa espécie foi trazida para o Brasil pelos imigrantes japoneses e foi plantada em São Paulo, Rio Grande do Sul, Paraná e Minas Gerais, porém as condições climáticas podem alterar sua aparência”, ensina Yamaoka.

O mestre revela ainda que o bambu é cortado rigorosamente durante o inverno, no Japão, em janeiro, e no Brasil, em agosto. Dez dias após a colheita é extraído seu óleo natural por meio de aquecimento pelo fogo. Depois, ele fica secando durante dois anos.

Yamaoka conta que “o tamanho do shakuhachi standart, o mais comum, é de 1.8 shaku, ou 54,54 cm”. “Sua sonoridade depende do soprador, e não do instrumento”, explica.

O mestre já iniciou pelo menos uma centena de pessoas em todo o Brasil, e em Belo Horizonte ele tem supervisionado um grupo de 12 pessoas que já construíram suas flautas e estão tocando.

“No passado, havia dois grupos de praticantes de shakuhachi: monges budistas que oficiavam cerimoniais de falecimentos por meio de orações e não sopravam o instrumento, e os monges da tradição zen budista, chamados fukesyu, que não eram obrigados a rezar pelos falecimentos, mas eram obrigados a soprar o shakuhachi”, observa o mestre.

Ele conta uma curiosidade: “Os monges fukesyu tinham que se desligar da família e caminhavam pelos povoados pedindo doações de moedas e alimentos. Durante o percurso, sopravam o shakuhachi. Somente os samurais podiam se tornar monges com a autorização do governo de Shogunato Tokugawa, que perdurou até ano de 1868, quando houve a Revolução Japonesa. Com o novo governo, todos os monges e monjas foram autorizados a se casar, colocando fim a uma proibição que durou 800 anos, e qualquer cidadão podia soprar o shakuhachi”, finaliza Yamaoka.

Som leva a profundo silêncio interior

O músico multi-instrumentista, compositor de trilhas sonoras e professor Thiago Miotto Terada, é um amante incondicional da música e um curioso em conhecer ao máximo as diversas culturas ao longo dos séculos. “Pesquisando músicas tradicionais, me deparei com uma gravação da peça Hon Shirabe, tocada pelo mestre Atsuya Okuda. Logo que comecei a ouvi-la, imediatamente acessei um estado meditativo bastante pacífico, que perdurou durante toda a gravação”, recorda.

Miotto ficou impressionado com o poder daquela música. “Ela me levou a um profundo silêncio interior. Pesquisando a respeito, descobri que havia tido contato com a música do shakuhachi e que muitas das peças desse instrumento foram criadas exatamente com esse intuito: a meditação”, comenta.

Miotto decidiu buscar um mestre sensei. “Akio Yamaoka além de mestre de shakuhachi é uma pessoa muito atenta, tranquila e extremamente generosa com todos que o procuram, sempre nos presenteando com seus conhecimentos e sabedoria”, finaliza. (AED).

Curiosidades

* Quem faz a meditação zazen aprecia ouvir som de shakuhachi;

* Animais são atraídos pelo som de shakuhachi;

* Um ganso veio nadando de uma margem à outra da lagoa para se aproximar de alguém que tocava o instrumento e ficou emitindo um tipo de som;

* Fui ao cemitério homenagear meu pai e comecei a soprar o shakuhachi. Um bando de bem-te-vis voou até a copa de árvore e começou a cantar;

* Se o sopro de shakuhachi desperta os animais, deve influenciar o cérebro humano.

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