Ailton Krenak inaugura exposição em BH sobre viagem com fotógrafo japonês há 30 anos: ‘Amazônia que não existe mais’

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A nova exposição do CCBB-BH convida o público para uma viagem à Amazônia. O Centro Cultural exibe a mostra “Hiromi Nagakura até a Amazônia com Ailton Krenak”, que reúne fotos e itens de aldeias visitadas pelo fotógrafo japonês e o líder indígena na década de 1990. Idealizada pelo Instituto Tomie Ohtake, de São Paulo, a exposição tem entrada franca e seguirá em cartaz até 30 de novembro.

Com curadoria do próprio Ailton, em trabalho conjunto com Angela Pappiani, Eliza Otsuka e Priscyla Gomes, o trabalho traz “momentos de intimidade e contentamento entre amigos”, nas palavras do constituinte brasileiro.

“Eu achei que a gente tinha, sim, encontrado uma chave pra não ficar com a história da Amazônia confinada no Ocidente, que ela pudesse ser percebida pelo Japão e por uma audiência que não é só mais americana”, destacou no lançamento da exposição em BH. “Há uma narrativa sobre a Amazônia confinada no National Geographic, nos jornais americanos. Os japoneses descobriram uma floresta amazônica cheia de humanidade com as reportagens do Nagakura”, completou.

As viagens de “Hiromi Nagakura até a Amazônia com Ailton Krenak” passaram pelos estados do Acre, Roraima, Mato Grosso, Maranhão, São Paulo e Amazonas. Segundo a produção, alguns dos indígenas que foram visitados pela dupla há 30 anos estão presentes na exposição.

“Pessoas queridas que nos receberam em suas cozinhas e canoas, suas praias de rios e nas aldeias Ashaninka, Xavante, Krikati, Gavião, Yawanawá, Huni Kuin, assim como nas comunidades ribeirinhas no Rio Juruá e região do lavrado em Roraima”, antecipou Ailton.

Além das imagens e itens expostos nas galerias do CCBB-BH, a mostra conta com recortes documentários e uma programação de oficinas e debates com Krenak e Nagakura durante a primeira semana em cartaz na capital mineira. Confira ao fim da matéria.

Viagem no tempo

O início da parceria entre as duas figuras remete a 1993. Em agosto daquele ano, deu-se o primeiro de muitos encontros entre Hiromi e Ailton. Recém-chegado ao Brasil, o fotógrafo japonês ainda não conhecia o ativista indígena, mas ao tomar contato com as imagens do emblemático discurso na Assembleia Constituinte de 87, almejou tê-lo como parceiro e interlocutor em sua busca pelas diferentes etnias dos povos originários brasileiros.

Além da distância geográfica, a barreira do idioma também parecia ser um entrave para o encontro. Eliza Otsuka, intérprete de Nagakura e uma das curadoras da mostra que chega a BH, foi responsável pela aproximação desses universos, participando, a partir daí, de uma série de percursos realizados em conjunto, embriões de uma longeva amizade.

“Ela (Eliza) resumiu com estas palavras o conceito todo do projeto para alguns anos dali para frente: ‘ele vai ser a sua sombra por onde você for, quando estiver dormindo e quando estiver acordado’”, recorda Krenak sobre o início da parceria com Hiromi. “Nós andamos por dezenas de aldeias nas cabeceiras dos rios Juruá, Negro e Demini, Tarauacá e rio Gregório, além de cortar estradas pelo cerrado e regiões de florestas onde a vida continua vibrante como nos primórdios da criação”, diz.

Apesar do otimismo, o líder indígena destaca o caráter histórico da exposição, que apresenta ao público uma Amazônia passada. “Continuamos ainda com a coragem de mostrar uma exposição sobre uma Amazônia que não existe mais. Como uma paisagem magnífica daquela que desaparece como se fosse num truque, um passe de mágica?”, levantou.

No “fim do mundo”, entretanto, a palavra para Krenak continua sendo otimismo. “A esperança é um equilibrista, e mesmo quando a gente tá atravessando um abismo, ela subsiste, pra gente continuar a atravessar”.

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