Casas de bruxa: entenda o fenômeno que cresce rapidamente no Japão

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Casas abandonadas e em ruínas caracterizam a crise imobiliária japonesa, motivada pelo envelhecimento da população

Para os mais de 378 milhões de quilômetros quadrados do território do Japão, existem aproximadamente oito milhões de casas abandonadas, vazias e sem esperança de ocupação por futuros moradores.

Apelidadas de akiyas, essas residências compõem um lar a cada oito e traduzem a crise imobiliária do país em “casas de bruxa”, que são, em maioria, extremamente decrépitas e em ruínas pela falta de cuidado.

Mais comuns em zonas rurais e interioranas como Wakayama – onde um a cada cinco dos imóveis são abandonados –, as akiyas são um problema histórico do Japão. O fenômeno veio à tona pela primeira vez no período pós-guerra dos anos 1950, quando a urbanização e industrialização do país viu um grande crescimento.

“As casas construídas antes da guerra foram feitas para durar, com a expectativa de que elas seriam o lar para famílias no decorrer de várias gerações,” explica Richard Lloyd Parry, editor do The Times’ Asia, ao The Times UK. “Mas após as bombas aéreas devastarem as cidades, a prioridade virou providenciar habitações visando a quantidade. A qualidade, dessa maneira, foi negligenciada.”

As casas abandonadas são mais comuns em regiões rurais e interioranas do país — Foto: Flickr / m-louis .® / Creative Commons

As casas abandonadas são mais comuns em regiões rurais e interioranas do país — Foto: Flickr / m-louis .® / Creative Commons

As novas residências japonesas, assim, começaram a ser mais temporárias do que antes, e passaram a ter a sua expectativa de duração reduzida a apenas algumas décadas. Isso criou um fenômeno próprio: como os imóveis passaram a não manter o seu valor com o decorrer do tempo, a maioria dos japoneses começou a preferir comprar casas recentemente construídas ao invés das previamente ocupadas.

“No Japão, uma nova casa é como um carro zero: quando ele sai das salas de exposição, perde muito de seu valor”, acrescenta Parry. “Existem ruas nas quais quase todos os imóveis foram abandonados.”

Entre os motivos por trás das "akiyas" está a baixa natalidade do país e pouco demanda por imóveis antigos — Foto: Flickr / m-louis .® / Creative Commons

Entre os motivos por trás das “akiyas” está a baixa natalidade do país e pouco demanda por imóveis antigos — Foto: Flickr / m-louis .® / Creative Commons

A explicação para as akiyas está muito atrelada à média etária do país. Ao ter uma das populações mais antigas do mundo – e um a cada quatro cidadãos acima dos 65 anos, de acordo com estatísticas governamentais –, muitas das residências são abandonadas quando os moradores atingem uma certa idade. Há o costume deles deixarem a casa de suas famílias para viver em lares menores e mais acessíveis.

Junto a isso, a baixa taxa de natalidade do país faz com que a demanda por imóveis, de modo geral, seja menor: em 2022, o território registrou menos de 800 mil nascimentos, segundo o Ministro de Saúde do Japão. Essa tendência é uma que se mantém desde os anos 1970 e conta com um decréscimo constante desde 2009.

“Tantas casas vazias também é algo dissuasivo, porque as pessoas não querem morar em uma vila rodeada por ‘casas de bruxa’”, conta Chris McMorran, professor associado na Universidade Nacional de Singapura, ao Insider. Esse elemento se une, ainda, à “uma resistência em repopular as áreas rurais, devido à falta de acesso a necessidades básicas, como hospitais e lojas de conveniência.”

“Isso só vai ficar pior,” continua Chris. “A raiz do problema é que não existem pessoas o suficiente no Japão.”

Dessa maneira, a previsão é que o número de akiyas aumente. O instituto Nomura Research prevê que, até 2038, um terço das casas estarão desabitadas, graças a uma combinação penosa de leis de propriedade, dificuldade de rastrear antigos proprietários e barreiras econômicas e culturais, que impedem a destruição dessas “casas de bruxa”.

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