75 anos depois, lições saídas de Hiroshima e Nagazaki

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75 anos depois, lições saídas de Hiroshima e Nagazaki

A 6 de Agosto de 1945, ocorreu o bombardeamento atômico da cidade japonesa de Hiroshima, durante os estágios finais da II Guerra Mundial. A bomba, denominada “Little Boy”, foi lançada pelo avião norte-americano Boeing B-29 Superfortress “Enola Gay” e explodiu às 8h15 a 570 metros do solo.

Na sequência, formou-se uma imensa bola de fogo com uma temperatura de 300 mil graus centígrados. Fez-se uma enorme nuvem de fumo em formato de cogumelo de mais de 18 km de altura. Cerca de 80 mil pessoas morreram e 35 mil ficaram feridas na explosão. Até ao fim do ano, pelo menos mais 60 mil perderam a vida, devido aos efeitos da bomba.

Situada no Oeste da ilha, Hiroshima é uma cidade portuária e era, na altura, uma importante base militar japonesa. Restaram apenas 28 mil dos 90 mil edifícios existentes. Estima-se que aproximadamente 69% das construções da cidade foram completamente destruídas e cerca de sete por cento severamente danificadas. Dos 200 médicos que havia, só 20 sobreviveram. A explosão da bomba lançada pelo “Enola Gay”, nome posto em homenagem à mãe do piloto do avião, gerou tantos incêndios que eram impossíveis de contar.

“Little Boy” era uma bomba atômica de urânio. Três dias, a 9 de Agosto, foi lançada uma nuclear de plutônio, a “Fat Man”, sobre a cidade de Nagazaki. Morreram entre 60 e 80 mil pessoas.
A maioria dos mortos em ambas as cidades, cerca de metade no primeiro dia e as restantes nos meses seguintes, devido às queimaduras, envenamento radioativo e outras lesões, agravadas pelos efeitos da radiação, era civil, embora Hiroshima tivesse muitos militares.

“Atentado terrorista”

Em Hiroshima, no dia do bombardeamento, o Governo da cidade tinha colocado centenas de raparigas estudantes para trabalhar na limpeza de faixas de fogo que seriam provocadas por ataques com bombas incendiárias.
Em Tóquio e outras cidades japonesas, os bombardeamentos haviam causado uma destruições em massa e centenas de milhares de mortes de civis, na maioria mulheres e crianças. Toyama, região urbana de 128 mil habitantes, foi completamente arrasada, levando consigo 90 mil vítimas.

Tal não havia acontecido antes em Hiroshima. Nesta cidade, centro chave para a navegação, localizava-se o quartel general da marinha, no porto de Ujina. Era também a sede ao Segundo Exército e do Exército Regional de Chugoju. Existiam ainda grandes depósitos de suprimentos militares.
Ainda hoje, a justificação ética dos bombardeamentos e o seu papel na rendição do Japão é motivo para debates, havendo quem o considere o maior atentado terrorista da história da Humanidade, mais não seja porque o objetivo do Governo e do exército dos Estados Unidos da América era aterrorizar a população japonesa e evitar, assim, uma invasão ao país.

Ferocidade das forças japonesas

Momentos únicos na história em que armas nucleares foram usadas contra alvos civis, os bombardeamentos de Hiroshima e Nagazaki recordam-nos que, tendo a guerra terminado na Europa, com a capitulação da Alemanha nazista, a 8 de Maio de 1945, e os EUA, o Reino Unido e a China, na Declaração de Potsdam, de 26 de Julho, terem pedido a rendição incondicional das forças japonesas, sob a ameaça de uma “destruição rápida e total”, a Guerra no Pacífico continuou.

Em muitas batalhas já antes decorridas, as forças japonesas demonstraram grande capacidade de resistência e ferocidade. Os soldados eram incentivados a pôr termo à própria vida em vez de se renderem. São conhecidos vários casos de suicídio coletivo.
A decisão japonesa de lutar até à morte, como ficou claro nas batalhas das Filipinas, Iwo Jima, Okinawa e Gudalcanal, levou os comandantes norte-americanos a concluíram que a invasão da ilha resultaria em milhares de mortes dos seus soldados.

A batalha de Iwo Jima, que ficou muito conhecida no filme de Clint Eastwood “Letter from Iwo Jima” (Cartas de Iwo Jima, 2006), durou 35 dias. Naquela ilha vulcânica japonesa desembarcaram, a 19 de Fevereiro, 110 mil marines de 880 navios de guerra. A posição era defendida por 22 mil soldados japoneses. O saldo foi de 6.889 fuzileiros norte-americanos mortos e 18.070 feridos. 212 nipônicos foram feitos prisioneiros. Alguns permaneceram escondidos e renderam-se apenas em 1949.
Okinawa, na ilha de Okinawa, no arquipélago de Ryukyu (sul das quatro maiores ilhas do Japão), foi palco, de Abril a Junho de 1945, da maior batalha marítimo-terrestre-aérea da história.

Com grande população civil, em Okinawa morreram, no mínimo, 130 mil não-combatentes. Do lado das tropas japonesas, houve 110 mil mortos, muitos dos quais preferiram o suicídio, a serem capturados. Para os japoneses, a rendição era algo vergonhoso.
As baixas norte-americanas foram mais de 72 mil, das quais 15.900 mortos ou desaparecidos, o dobro de Iwo Jima e Guadalcanal.

Os temidos Kamikaze

Além disso, eram muito temidos os kamikaze, jovens pilotos que, com aviões carregados de bombas, lançavam-se sobre os objetivos norte-americanos e aliados, sobretudo navios, levando consigo as embarcações e os seus tripulantes.

Em japonês, kami significa “deus” e kaze, “vento”, podendo a expressão ser traduzida por “vento divino”. Com o nome oficial de Tokubetsu Kõgekitai (Unidade de Ataque Especial) ou Shinpu Tokubetsu Kõgekitai (Unidade de Ataque Especial Vento Divino), quando pertenciam à marinha, os kamikaze embarcavam nos aviões modelo Mitsubishi A6M Zero, escreviam poesias, ganhavam um brinde de saquê, levavam a bandeira, amarravam uma faixa, o hachimaki, e também usavam um cinto, o sennibari. Carregavam ramos de cerejeira e levavam ainda uma espada e uma pistola para o caso de fracassarem e se poderem suicidar. Estima-se que 2.525 pilotos morreram nesses ataques, causando a morte de sete mil soldados aliados e deixando mais de quatro mil feridos. Os japoneses falavam em 81 navios afundados e 195 danificados.

A 15 de agosto, após declaração de guerra da União Soviética, a 7 de agosto, o envio de mais de um milhão de soldados para a realização da Manchúria, no noroeste da China, para enfrentar 700 mil homens, na chamada operação Tempestade no Deserto, o Japão acabou por anunciar a sua rendição aos aliados, o que se tornou formal a 2 de setembro, com a assinatura pelo governo japonês do acordo de rendição, o qual pôs fim à II Guerra Mundial.

Ato de vingança?

Nos debates a respeito dos bombardeamentos de Hiroshima e Nagazaki, é também apontada a hipótese de se tratar de um ato de vingança dos EUA, sobretudo pelo ataque de 7 de dezembro de 1941 à base naval de Pearl Habor, no Havaí, que resultou na destruição parcial da frota norte-americana ali estacionada.

Nesse ataque militar surpresa do serviço aéreo Imperial da marinha japonesa, foram afundados quatro encouraçados e danificados outros quatro. Foram também afundados um antigo encouraçado e um rebocador, danificados três cruzadores, três contra-tropedeiros e três outros navios. Foram destruídos ainda 188 aviões e danificados 159. Houve 2.335 mortos, dos quais 68 civis, e 1.143 feridos, 35 civis. Foram também abatidos três aviões não militares. Do lado japonês, a Operação Z, que começou às 7h48 locais, levado a cabo por 353 aviões, resultou em quatro mini-submarinos afundados e um encalhado, 29 aviões abatidos, 74 danificados, 74 mortos e um marinheiro capturado.
O ataque a Perl Harbor levou a que os EUA, até então um país neutro, entrassem na II Guerra Mundial. O Japão fazia parte do Eixo, ao lado da Alemanha nazista e da Itália fascista, comandada por Mussolini.

A Aliança do Eixo, surgido no Pacto Anticomintern, tratado anticomunista assinado em 1936 pela Alemanha e o Japão, a que a Itália aderiu em 1937, tornou-se uma aliança militar em 1939, com o “Pacto de Aço”, o qual deu lugar ao “Pacto Tripartite”, em que foram definidos os seus objetivos militares. No auge, o Eixo ocupava grande parte da Europa, África, Ásia e ilha do Pacífico. Hoje, recordar os tristes episódios de Hiroshima e Nagazaki obriga-nos a refletir sobre os males da guerra e a necessidade da manutenção da paz. Setenta e cinco anos após o primeiro uso de uma arma nuclear em guerra, existem quase 14 mil ogivas, muitas das quais fazem parte de protocolos para lançamento rápido.
Enquanto isso, crescem as tensões entre os estados que detêm armas nucleares, ao mesmo tempo em que são questionadas instituições para o desarmamento e controle de armas. Os bombardeamentos de Hiroshima e Nagazaki são, de fato, grandes lições para a humanidade.

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