Do korori ao coronavírus, a visão japonesa sobre as epidemias

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Do korori ao coronavírus, a visão japonesa sobre as epidemias

Numa das primeiras entrevistas que deu após deixar o Ministério da Saúde, o agora ex-ministro Luiz Henrique Mandetta referiu-se ao “ojigi”, nome dado à forma japonesa de cumprimentar-se socialmente, inclinando o tronco diante do interlocutor.

De acordo com o ex-ministro brasileiro, essa reverência é fruto de um aprendizado ancestral relacionado à importância do distanciamento social para conter a propagação de doenças no Japão antigo.

“Isso aconteceu na história de todas as epidemias. Aquele cumprimento distante dos japoneses [ojigi], com a cabeça, é fruto da época das pestes. O cumprimento militar, com continência, a mesma coisa: era uma questão de saúde”, disse Mandetta.

Não é possível determinar com certeza se a explicação do ministro a respeito da etiqueta japonesa é historicamente acurada. Há registros do ojigi no Japão desde o século 6, e se acredita que sua origem possa estar ligada à gestos de submissão entre as castas e a rituais introduzidos no país com a chegada do budismo. Da mesma forma, a saudação militar à qual Mandetta se refere, a chamada continência, também tem teorias desencontradas a seu respeito.

Seja como for, a atual pandemia do novo coronavírus está demonstrando na prática que o distanciamento social é a forma mais eficaz para frear a propagação de uma doença que ainda não tem cura. Nesse sentido, a distância entre interlocutores e a ausência do toque físico são atitudes consideradas sensatas.

No caso japonês, a história registra o alastramento de uma epidemia em particular, que levou a mudanças radicais nos hábitos sociais e de higiene de todo o país entre 1822 e 1858, quando se dá a abertura dos portos às potências ocidentais de então.

O desembarque do “korori”

A abertura dos portos japoneses às potências ocidentais fez com que o país fosse varrido pela primeira grande epidemia de cólera de que se tem notícia no arquipélago, no fim do Período Edo (1603-1868).

FOTO: BIBLIOTECA DO CONGRESSO AMERICANO

GRAVURA DE UTAGAWA HIROSHIGE, MORTO NA EPIDEMIA DE CÓLERA, MOSTRA CHEGADA DE NAVIO AMERICANO AO JAPÃO

A doença ficou conhecida em japonês como “korori”, e foi levada provavelmente por tripulantes do navio americano Mississippi aos portos da antiga capital do Japão, Edo (hoje chamada Tóquio). De lá, o vibrião se alastrou seguindo o curso do comércio, através do trânsito de pequenas embarcações de cabotagem, por rios e mares do Japão.

A cólera ou “korori” era representada nas gravuras da época por uma quimera, nome dado às figuras mitológicas cujos corpos são formados por partes de diferentes animais. O “korori” era representado muitas vezes com um corpo que era metade de tigre e metade lobo. A figura representava a velocidade e a ferocidade com que a doença matava suas vítimas.

À época, a doença já era endêmica na região indiana do Rio Ganges, que corta o norte da Índia até o atual Bangladesh. A colonização britânica da Índia fez a doença se espalhar pelo mundo, até ter seus primeiros registros no interior do Japão ainda em 1822, embora a epidemia mais grave só fosse se manifestar mais de 30 anos depois, quando atingiu a capital, então cidade mais populosa do mundo.

Pesquisadores japoneses dizem que entre 100 mil e 300 mil pessoas morreram nessa epidemia, que foi retratada por gravuras de crematórios congestionados pelas vítimas do korori. Um dos gravuristas mais importantes desse período, Utagawa Hiroshige foi morto pela doença.

A cólera mata por desidratação ao causar na pessoa contaminada fortes diarreias e vômitos. A doença é transmitida pelo contato com fluidos da pessoa contaminada, que também podem estar na água ou em alimentos não cozidos ou mal lavados.

Nos diferentes portos e vilarejos, a doença foi batizada com diferentes nomes, tais como tonkororin, teppô, kenyû e os mais ilustrativos: mikka korori (abatido em três dias) e korori (morte súbita) – este último, usado na capital, Edo, e consagrado pela literatura médica de então.

Medidas de proteção

À época, os japoneses se fiavam em simpatias ligadas ao budismo e ao xintoísmo para se protegerem de doenças. Era comum o uso de patuás, escapulários e amuletos aos quais eram atribuídas funções protetoras. Tambores e sinos também eram tocados para espantar os chamados maus espíritos.

O korori, porém, logo mostrou que não podia ser debelado com os velhos misticismos. Convencido disso, o shogunato Edo editou seu primeiro livro de normas sanitárias, que continha extratos de traduções de publicações europeias. O trabalho foi conduzido em dupla, pelo japonês Ogata Kôan e pelo holandês Johannes Pompe, que viviam em Nagasaki.

O manual recomendava sobretudo práticas de higiene (“mantenha seu corpo e suas vestes limpas”), mas também falava dos cuidados com o bem estar em geral (“pratique exercício físico moderado e mantenha hábitos alimentares modestos”).

No fim do século 19, a conclusão de que a água contaminada era um grande vetor de transmissão da cólera fez com que normas adicionais fossem editadas, recomendando a fervura de bebidas e alimentos, além da permanente ventilação dos cômodos das casas.

Um memorando publicado mais tarde, em 1877, já na vigência da Era Meiji (1867-1912), determinava que “parentes de famílias afetadas por um ou mais casos de cólera evitassem entrar e sair repetidas vezes de suas casas”.

Desde então, medidas de distanciamento social, de ventilação das habitações e de cuidados com a correta higiene do corpo, do vestuário e dos alimentos passaram a ser incorporadas tanto no cotidiano quanto em situações que requerem rápida mobilização social diante de uma ameaça de epidemia ou pandemia no Japão.

Ecos nos dias presentes

A cólera não foi a única epidemia que o Japão enfrentou. A varíola já havia afetado o país no século 6. Em seguida, ondas de rubéola e de febre amarela eclodiram seguidas vezes, até o século 19.

Hoje, a capacidade de mobilização japonesa é novamente posta à prova por uma doença grave. O coronavírus já havia deixado quase 12 mil contaminados e 300 mortos no país, até quinta-feira (23).

FOTO: TORU HANAI/REUTERS – 23.10.2017

PRIMEIRO-MINISTRO DO JAPÃO, SHINZO ABE, EM EVENTO POLÍTICO EM TÓQUIO

O primeiro-ministro Shinzo Abe foi dos líderes internacionais que retardaram ao máximo a tomada de medidas mais radicais de isolamento social, e passou a ser criticado por isso quando os casos subiram.

A marca dos 10 mil casos foi ultrapassada no dia 18 de abril, e médicos japoneses temem que o sistema de atendimento de urgência entre em colapso. Tóquio, a antiga Edo do tempo do korori, é a cidade mais afetada.

O país está em estado nacional de emergência até 6 de maio. O equivalente a 44% da população total do país, de 126,5 milhões de habitantes, está em quarentena, mas não há aplicação de penas de multa ou prisão para infratores, como ocorre nos países mais afetados da Europa, como Espanha, Itália e França.

Abe tentou ao máximo manter o clima de normalidade, mas a estratégia definhou desde que o país se viu obrigado a transferir os Jogos Olímpicos de 2020 para 2021. A competição ocorreria em Tóquio, a partir de 24 de julho, mas, conforme a crise se agrava, torna-se um evento incerto, num horizonte cada dia mais nebuloso.

João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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