No: os japoneses estão furiosos e ainda bem

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No: os japoneses estão furiosos e ainda bem
Boris' Dear comes out July 1

Boris é uma banda japonesa focada em música Experimental, com caraterísticas de Doom Metal, Noise e Drone Metal. Com mais de 3 décadas de “serviço”, Atsuo, Takeshi e Wata voltam com o seu novo projeto, No.

A incrível diversidade de álbuns que Boris lançou faz com que nunca saibamos ao certo o que cada novo projeto trará aos nossos ouvidos. As possibilidades variam entre uma abrupta coleção de riffs pesados, algo mais na vertente do Noise e abstrato ou um som inclinado mais para a área do Shoegaze e Dream Pop.

No revê-se mais na primeira opção. Um álbum intenso e dinâmico que se espelha, de certa forma, com trabalhos passados da banda, como Pink e Gensho. Boris embarca numa série de impetuosas e implacáveis faixas que pegam em elementos de Crust Punk, Hardcore e um pouco de Trash Metal.

As influências do Sludge Metal é algo que sempre ficou com Boris. Apesar da velocidade e agressividade das faixas de No, os sons das guitarras continuam pesados e profundos. A faixa inicial, “Genesis”, faz jus a esta descrição.

O projeto abre com um instrumental de 6 minutos com riffs lentos, influenciados pelo Doom, que criam uma atmosfera de incerteza e um clima de tensão ascendente. No último minuto da faixa, verifica-se um aumento do ritmo: mais camadas de som, mais reverberação e, no geral, um som ainda mais pesado e marcante. O facto de ser tão sinistra e “sem resposta” faz de “Genesis” uma boa faixa introdutória, que estabelece o tom para o resto do projeto.

Reminiscente a “Genesis”, a quinta faixa – “Zerkalo” – acompanha o estilo de som proposto na intro. Os riffs distorcidos, acompanhados pelos vocais – e gritos – absolutamente macabros e diabólicos e pelo feedback constante, faz desta faixa uma das mais marcantes de No, mesmo que seja uma das mais lentas.

O que podemos retirar destas duas faixas é que, ao serem introduzidas, não deturpam o sentido e a visão do álbum. Não retiram a agressividade das faixas mais Punk. O mais próximo de tal acontecer só na faixa final, “Interlude”, onde um momento com um ambiente mais dreamy, marcado por guitarras a ecoar no fundo e vocais sussurrados.

O resto do álbum, porém, é uma tempestade caótica de som. A segunda faixa, “Anti-Gone”, com a fusão de Punk com Trash Metal, acrescenta ao som acelerado que vem a ser desenvolvido no primeiro minuto.

Só com esta instância podemos ouvir a visceralidade e a fúria de Boris. A produção e o som de “Anti-Gone” – e de muitas outras – é simplesmente incrível. A banda consegue encontrar um equilíbrio saudável entre a velocidade frenética, o peso e a carga musical. Ainda assim incorporam os tons musculares e o detalhe necessário para que o ouvinte possa perceber o que está a acontecer, com tantos sons a lutarem pela dominância.

Apesar de ser uma qualidade que se repete pelo projeto, não é sempre o caso, nomeadamente, com a faixa “Temple of Hatred”. É esquecida qualquer forma de “harmonia”. Carrega no acelerador até ao fundo e torna-se numa estonteante parede de som em que uma pessoa perde o pescoço de tanto o abanar – por exemplo, eu.

A faixa “Perforation Line”, a meio do álbum, é das mais marcantes pela conjugação engenhosa de sons e estilos. Soa a uma mistela entre Hardcore Punk e Shoegaze beatífico e devaneador. De certa forma, a faixa está a lutar contra si mesma.

A velocidade extrema das batidas não encaixa logo com a atmosfera colorida a que estão apegados, que, por sua vez, não encaixa com os vocais esganiçados. Tendo isto tudo em conta, a faixa não deixa de ser gratificante, especialmente quando se desenvolve numa parede de som distorcida e irreconhecível.

As restantes faixas continuam a ser uma porrada aos ouvidos – no bom sentido. Por exemplo “Kikinoue” e “Fundamental Error” com um som claustrofóbico e absolutamente caótico. “Lust” acompanha este som monstruoso mas, ao contrário das outras faixas contemporâneas, acaba por ser mais repetitiva e um pouco genérica. Não há um desenvolvimento do som e, por muito pesados que sejam estes riffs, sem uma estrutura em que estes se possam apoiar, a faixa acaba por ser um skip.

Dentro deste aspeto mais negativo do projeto musical, temos também “Non Blood Lore”. Apesar de ter vários aspetos que me agradam – o som pesado continua um marco – os vocais e harmonias que aparecem pelo meio distanciam-me de, definitivamente, gostar desta faixa. A forma como são misturadas e realizadas acabam por ser mais um incómodo que uma boa adição.

Loveless” serve como a música final do álbum, em termos de som. Todos os tipos de música agressiva que Boris tem feito ao longo de No, culminam nesta única faixa, que se estende por 6 minutos.

É uma música com várias partes que se conjugam estupendamente. Uma intro lenta, perfeita para abrir o pit, com leads de guitarra simples, mas eficazes. Depois passamos para algo mais reminiscente de Speedy Metal com vocais de rasgar a garganta – semelhante a bandas como Nails e Full of Hell.

Uma performance implacável ; até que chegamos a um ponto em que os riffs rápidos se transfiguram para uma vertente mais lenta e Doomy, no final da faixa. Este momento final introduz um outro muito atmosférico com harmonias vocais que se assemelham a um cântico religioso, ecoando no nosso ouvido. Um final fantástico que reflete a versatilidade de outro mundo de Boris.

Não preciso de dizer muito mais para além de que No é dos melhores álbuns que ouvi este ano e um ponto alto da carreira de Boris. Não é um álbum muito diferente, não salta à vista de imediato. Não é inovador e, sim, há algumas músicas que podiam ser melhoradas.

Contudo faz já um tempo desde que Boris não lançava um som tão pesado e furioso como este – e isso é algo a apontar. Um marco para a capacidade que estes japoneses têm para, posto de forma brutesca, fazerem o que quiserem e acabarem sempre por soar bem.

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