Análise de DNAs antigos reescreve origem genética de japoneses modernos

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Análise de DNAs antigos reescreve origem genética de japoneses modernos

Já se sabe que a população japonesa atual carrega em seu DNA traços dos caçadores-coletores pré-históricos Jomon, que viveram no Japão entre 16 e 3 mil anos atrás, e dos agricultores Yayoi, que habitaram o arquipélago entre 900 a 300 d.C. Mas isso não é tudo.

Segundo um estudo publicado pela revista científica Science Advances na última sexta-feira (17), é preciso adicionar mais uma peça ao quebra-cabeça genético desse grupo étnico: o povo Kofun, cuja cultura se espalhou pela região entre os séculos 3 e 7.

O arquipélago japonês é ocupado por humanos há pelo menos 38 mil anos, mas suas transformações culturais mais radicais ocorreram apenas nos últimos três milênios. Foi durante esse período que se deu a transição de um meio de subsistência baseado na coleta de alimentos — característica do período Jomon — para o cultivo de arroz úmido, marca cultural do povo Yayoi.

Em seguida, o país se transformou em um território tecnologicamente avançado, com o início do período imperial Kofun, que durou de 300 a 700 d.C. Mas as origens demográficas e o impacto dessa última fase no genoma dos japoneses eram, até o momento, desconhecidos.

No mapa acima, as populações continentais antigas e atuais que estão significativamente mais próximas de Kofun do que de Yayoi são representadas por triângulos vermelhos, enquanto aquelas que estão simetricamente relacionadas a ambas as populações são rep (Foto: Science Advances)

No mapa acima, as populações continentais antigas e atuais que estão significativamente mais próximas de Kofun do que de Yayoi são representadas por triângulos vermelhos, enquanto aquelas que estão simetricamente relacionadas a ambas as populações são rep (Foto: Science Advances)

Após analisar 12 genomas japoneses antigos recentemente sequenciados, uma equipe interdisciplinar da Irlanda e do Japão identificou um influxo posterior de ancestrais do Leste Asiático durante a fase imperial Kofun. O material, considerado o maior conjunto de genomas do arquipélago obtido até o momento, veio de ossos de pessoas que viveram em períodos anteriores ou que sucederam a fase imperial, incluindo o indivíduo Jomon mais antigo e os primeiros dados genômicos do povo Kofun.

“Os pesquisadores têm aprendido cada vez mais sobre as culturas dos períodos Jomon, Yayoi e Kofun à medida que mais e mais artefatos antigos aparecem”, explica Shigeki Nakagome, professor de Medicina Genômica no Trinity College em Dublin, na Irlanda. “Mas só agora sabemos que os ancestrais derivados de cada uma das fases de forrageamento, agrária e de formação do estado deram uma contribuição significativa para a formação das populações japonesas hoje”, analisa o também líder da investigação, em comunicado.

Segundo o estudo, os grupos de caçadores-coletores Jomon mantiveram um pequeno tamanho populacional de cerca de 1 mil pessoas ao longo de vários milênios e só divergiram geneticamente da população japonesa por volta de 20 mil anos atrás. A época marcou o momento em que o Japão se tornou acessível através da Península da Coreia durante um período conhecido como Último Máximo Glacial, que elevou o nível do mar e transformou o Japão em um país insular cerca de 28 mil anos atrás.

O período Yaoyi marca o fim desse isolamento da população japonesa, com uma migração substancial de habitantes da Ásia continental começando pelo menos 2,3 mil anos atrás.

Abrigo rochoso Kamikuroiwa, localizado em Kumakogen, distrito de Kamiukena, onde o indivíduo Jomon mais antigo sequenciado no estudo foi encontrado (Foto: TRINITY COLLEGE DUBLIN)

Abrigo rochoso Kamikuroiwa, localizado em Kumakogen, distrito de Kamiukena, onde o indivíduo Jomon mais antigo sequenciado no estudo foi encontrado (Foto: TRINITY COLLEGE DUBLIN)

“O povo indígena Jomon tinha seu próprio estilo de vida e cultura únicos no Japão por milhares de anos antes da adoção do cultivo de arroz durante o período Yayoi subsequente”, explica Niall Cooke, arqueólogo no Trinity College em Dublin. “Nossa análise mostra claramente que eles são uma população geneticamente distinta com uma afinidade incomumente alta entre todos os indivíduos amostrados, mesmo aqueles com idades diferentes em milhares de anos e escavados em locais em ilhas diferentes”.

Evidências arqueológicas mostram que a transição Yayoi-Kofun, por sua vez, foi marcada pela introdução de novos grandes assentamentos no Japão, provavelmente provenientes da parte sul da península coreana. Ao que tudo indica, o período marcado pelo surgimento de novos traços sociais, culturais e políticos nesta fase de formação do Estado também foi marcado por um intercâmbio genético na população.

Isso porque os cientistas encontraram uma “clara distinção genética” entre os grupos de pessoas que chegaram ao arquipélago durante as fases de formação do país, antes e depois dela. Os dados da pesquisa fornecem evidências de que a origem genética das populações modernas no Japão é tripartite, e não dual, como se pensava até então. “Os ancestrais que caracterizam cada uma das culturas Jomon, Yayoi e Kofun deram uma contribuição significativa para a formação das populações japonesas hoje”, conclui o estudo.

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