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Descendentes de japoneses estão deixando o Brasil e fazendo o caminho de volta de seus ancestrais

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Boa parte descendente de imigrantes japoneses, comunidade brasileira soma 211 mil integrantes que se beneficiam da escassez de mão de obra no país, informa O Globo

Pedro arrumou serviço numa fábrica de autopeças na cidade de Seki, região central do Japão, depois de quase um mês, enquanto Peetra ainda espera por uma vaga. 

— Chegamos bem no final do ano fiscal japonês [março], uma época ruim para começar a trabalhar — explica ele. 

Mesmo com o iene fraco e desvalorizado, a ideia do casal é ficar cinco anos e juntar o máximo possível para abrir uma pet shop na cidade do Vale do Paraíba. 

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— O Brasil é ótimo em vários aspectos, mas não oferece muitas opções de crescimento para assalariados. Tínhamos empregos estáveis, mas sem perspectivas de um futuro melhor. Aqui, sabemos que não vamos ganhar dinheiro fácil, mas ainda é melhor — analisa Peetra, que estudou japonês e quer aproveitar para aprender e levar o máximo de conhecimento de volta à terra natal. 

As pretensões da família Sakurai são parecidas com as dos 211 mil brasileiros residentes no país, segundo dados de 2023 do Ministério da Justiça. Esse grupo já foi bem maior. Em 2008, eram 317 mil, de acordo com a estatística oficial. A queda ocorreu após a crise econômica mundial naquele ano e se acentuou com o terremoto e a tsunami de 2011. Desde então, o número praticamente ficou estável, com leve subida pós-pandemia. 

Diego Cipriano e a família no Japão. Brasileiro trabalha 12 horas por dia e ainda faz bicos no fim de semana — Foto: Arquivo pessoal
Diego Cipriano e a família no Japão. Brasileiro trabalha 12 horas por dia e ainda faz bicos no fim de semana — Foto: Arquivo pessoal

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Diego Cipriano, 38, foi um dos que chegaram pouco antes da recessão, há 17 anos. Ele deixou a carreira de ciclista profissional e um trabalho na área de informática para tentar uma vida melhor no exterior. A esposa, neta de japoneses, convenceu-o a vir para o Japão. Hoje, ele trabalha em média 12 horas por dia numa fábrica de transformadores de alta tensão, de segunda a sexta. Nos finais de semana, faz bicos em um food truck de pizza, faz manutenção de bicicletas em uma empresa de turismo em Kyoto e atua como fotógrafo em eventos, aniversários, além de fazer ensaios pessoais. 

— Tem dia que durmo apenas três horas — conta o brasileiro, que ganha em média 1.400 ienes (R$46) por hora.

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Tanto empenho tem um motivo. Ele financiou um imóvel próprio e quer garantir os estudos dos três filhos nascidos no Japão. 

— Minha obrigação é dar à família uma vida melhor do que a que tive no Brasil — justifica Cipriano. — Cheguei no Japão com apenas duas malas, sem falar o idioma ou conhecer a cultura. Hoje tenho orgulho do que conquistei: comprei uma casa confortável, um bom carro e tenho uma segurança que não se encontra em nenhum lugar do mundo. 

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O país oriental é destino de trabalhadores brasileiros desde o fim da década de 1980. Mas foi em 1990 que o Japão inseriu uma emenda na Lei de Controle de Imigração e Reconhecimento de Refugiados, dando a possibilidade para descendentes da segunda e da terceira geração (nisseis e sanseis, respectivamente) e suas famílias obterem visto atrelado a uma nova categoria, com permissão para trabalhar. 

A reforma, conta o jornalista e escritor Gilberto Yoshinaga, calhou com o Plano Collor, o que fez milhares de brasileiros emigrarem para o Japão em busca de estabilidade. 

— Famílias inteiras começaram a se establecer no Japão. Se antes iam só para juntar dinheiro em pouco tempo e retornar, passaram a prolongar a estadia e a consumir mais, comprando carros e até casas — detalha Yoshinaga, que vai lançar um livro sobre a saga dos brasileiros no país. — Nesta última década, o perfil do imigrante não mudou muito.

O sociólogo e pesquisador Angelo Ishi concorda. 

— Minha impressão é que, hoje, a principal massa de brasileiros que vêm para cá é de pessoas que já têm experiência prévia de trabalho no Japão, ou são aqueles que já têm alguém da família vivendo aqui — opina Ishi, que dá aulas na Universidade Musashi, em Tóquio. — Há muito tempo o Japão deixou de ser um eldorado, até por conta da absurda desvalorização da moeda japonesa. 

O advogado Antonio Kotaro Hayata, 53, é um dos que viveram nessa ponte aérea. Na primeira vez, em 2002, ele veio estudar e aprimorar o japonês. Na segunda vez, em 2007, veio para acompanhar o fim da gestação da primeira filha e conseguiu emprego na controladoria de projetos da Mitsubishi Fuso, fabricante de caminhões e ônibus. Em 2011, voltou ao Brasil, mas com a ideia de vir ao Japão de novo, por isso investiu num apartamento próprio em Tóquio. O retorno só aconteceu em 2018. 

— Tinha acertado com minha família que a educação das minhas filhas seria no Japão, por isso voltamos — conta ele, que não pensa mais em voltar ao Brasil e há pouco conseguiu a autorização da Federação Japonesa de Associações de Advogados para atuar no país. 

Brasileiro morador do Japão, Antonio Hayata — Foto: Arquivo pessoal
Brasileiro morador do Japão, Antonio Hayata — Foto: Arquivo pessoal

A reforma de 1990 na lei de imigração também delimitou as duas principais diferenças da comunidade brasileira no Japão das demais comunidades brasileiras no exterior: ela pertence, na grande maioria, a um grupo étnico específico e está, na quase totalidade, regular (99,7%, segundo dados do Ministério da Justiça). 

Isso facilitou na solução de diversos problemas. Nestas quase três décadas e meia, muitas das demandas dos imigrantes foram atendidas, sobretudo nas áreas de educação, saúde e trabalho. A atenção à comunidade brasileira tem sido um dos principais eixos de ação dos três consulados brasileiros no país e da embaixada em Tóquio. 

Entre as décadas de 1980 e 1990, o Japão manteve o segundo maior PIB do planeta. Mas a partir dos anos 2000, a máquina foi desacelerando e, desde a crise econômica mundial de 2008, o país nunca mais se recuperou. A economia japonesa é agora a quarta maior do mundo, atrás de EUA, China e Alemanha. 

O país sofre também com o envelhecimento da população, tendo o maior índice do mundo de habitantes com 65 anos ou mais (29,1%). Em contrapartida, a taxa de natalidade é de apenas 1,26% — em 2023, os nascimentos caíram pelo oitavo ano consecutivo. 

Esses dados se refletem diretamente na escassez de mão de obra e no crescimento econômico. Por isso, ano após ano, o arquipélago abre cada vez mais as portas aos estrangeiros. Em 2023, o número de forasteiros vivendo no país chegou ao recorde de 3.411.000, um aumento de 10,9% em relação ao ano anterior, segundo dados da Agência de Serviços de Imigração. O ritmo de crescimento, segundo especialistas, deve se manter, pois a falta de mão de obra é crônica. Segundo um estudo da Agência Japonesa de Cooperação Internacional, o Japão precisará de 6,74 milhões de trabalhadores estrangeiros até 2040 para atingir suas metas de crescimento. 

Vietnamitas, filipinos e nepaleses foram as comunidades que mais cresceram nos últimos anos. A maior diferença para os brasileiros está no tipo de visto que esses trabalhadores conseguem. O governo japonês não quer mais dar brecha para que os estrangeiros mudem livremente de trabalho e de residência, que é a grande vantagem do visto concedido para os nikkeis (descendentes de japoneses). 

— O Japão criou um sistema de concessão de vistos que prioriza o controle sobre os trabalhadores estrangeiros, restringindo o tipo de atividade que irão exercer —explica Ishi. 

Com baixa qualificação, contratos instáveis e de curta duração, excluídos dos planos de promoção por tempo de casa e, em alguns casos, situação previdenciária irregular, os brasileiros são bastante vulneráveis a crises econômicas ou transformações estruturais na indústria, como mudanças tecnológicas ou introdução de migrantes de outros países. 

— O governo japonês nunca se empenhou em criar uma política imigratória. Somos tratados como parafusos. Quando dá algum problema, basta trocar — desaprova o jornalista Yoshinaga. 

Mesmo assim, o professor Ishi é otimista em relação ao futuro dos brasileiros no Japão. 

— A tendência é que as gerações jovens se integrem melhor, até porque o governo japonês está se empenhando mais nas políticas de coexistência com os estrangeiros. 

Por outro lado, no plano coletivo, como “comunidade”, Ishi é mais pessimista. 

— Não enxergo uma visão estratégica de longo prazo nas lideranças comunitárias para elevar a condição da comunidade de forma coletiva.

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