MEU NOME NÃO É JAPA: O PRECONCEITO AMARELO

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MEU NOME NÃO É JAPA: O PRECONCEITO AMARELO

Normalmente vistos como um modelo a ser seguido, é raro ver alguém discutindo a rotina de preconceito contra descendentes de japoneses e outros asitico-brasileiros que moram no Brasil. Mas bastou um episódio como o surto do novo coronavírus chinês – ou Covid-19 – para dar visibilidade a um problema bastante antigo e pouquíssimo discutido: o preconceito contra asiáticos. Marie Okabayashi de Castro Lemos, 23, postou um vídeo no Twitter mostrando o ataque que sofreu no metrô carioca por parte de uma passageira. Dentre as atrocidades: Quando eu vejo um chinês eu atravesso a rua; no compraria uma Coca fechada desse povo, porque eles contaminam tudo; os coreanos, tailandeses e esse resto também são um horror!; invadem nosso país, roubam os empregos do nosso povo, espalham doenças, relatou Marie em seu perfil, no dia 1 de fevereiro. Estou no sétimo período de direito, portanto, sei quais seriam as melhores formas de agir na situação. Mas nada disso me impediu de travar na hora e chorar muito depois. Me senti completamente impotente, diz a carioca, que é neta de japoneses.

Acostumado a receber xingamentos nas redes sociais pela sua ascendência japonesa, o jornalista Leonardo Sakamoto, 42, observa que a questão do preconceito amarelo vem ganhando visibilidade nos últimos meses por conta de uma série de acontecimentos. O coronavírus colocou isso em evidência, o Bolsonaro vem destilando seu preconceito, temos um descendente de coreanos no Big Brother Brasil [que foi chamado de japonês por outro participante do reality show], tem o Keisuke Honda, japonês contratado pelo Botafogo, que recebeu comentários xenofóbicos nas redes sociais. É uma tempestade perfeita, mas o problema sempre existiu, explica.

Depois de lançar o livro Tormenta – O governo Bolsonaro: Crises, intrigas e segredos, este ano, a jornalista Thaís Oyama, 54, foi alvo de uma reação enérgica do presidente Jair Bolsonaro, que disse: Esse é o livro daquela japonesa, que não sei o que faz no Brasil. Foi uma tentativa de sugerir que o livro foi feito por alguém de fora, uma estrangeira que não entende a realidade política do Brasil, diz ela, que é neta de japoneses. Não interpretei como sendo uma afirmação preconceituosa, embora saiba que muitos descendentes a entenderam assim e se sentiram ofendidos, o que é o bastante para que o presidente se envergonhe do que disse.

Casos como estes ajudam a evidenciar algo que sempre foi recorrente, mas não necessariamente visível. A situação vem mudando com o fortalecimento das discussões de questões identitárias de outros grupos, notadamente das militâncias negra e feminista, segundo Sakamoto. Quando movimentos sociais começam a levantar questões identitárias e de minorias, outros grupos começam a se identificar. Isso é alimentado pelo lado bom das redes sociais, em que as pessoas têm mais acesso à informação e acabam se conscientizando diante do preconceito.

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