ELES NOS CHAMAVAM DE INIMIGO

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ELES NOS CHAMAVAM DE INIMIGO

Além de ser o rosto e a alma de Hikaru Sulu, um dos mais destacados personagens da série clássica de Star Trek, o ator George Takei também é conhecido por sua faceta de ativista, engajadíssimo em causas sociais e de defesa dos direitos humanos. Mas não apenas aquelas envolvendo os direitos LGBTQI+, como era justíssimo de se esperar, só que também as que de alguma forma tenham relação com o assunto “imigração”. Dá pra imaginar, aliás, que nos últimos anos o que não faltou foi assunto para que ele criticasse a administração do moço alaranjado à frente da Casa Branca…

Justamente por isso, portanto, não tinha momento mais adequado para o Takei se lançar em seu primeiro trabalho como escritor de quadrinhos. Com a ajuda da dupla Justin Eisinger e Steven Scott, além do traço de Harmony Becker, surgiu a poderosa narrativa autobiográfica de Eles nos Chamavam de Inimigo. O gibi, lançado no ano passado, voltou à tona graças ao prêmio que recebeu no Will Eisner Comic Industry Awards, ao longo do último final de semana. E com total justiça. Não só o prêmio, mas também as pessoas voltando a falar sobre a publicação, uma narrativa doce mas ao mesmo tempo intensa sobre um tema que é um verdadeiro soco no estômago.

Lembra da Segunda Guerra Mundial? Com o ataque militar surpresa das tropas japonesas à base naval de Pearl Harbor, em Honolulu, em dezembro de 1941, os EUA entraram formalmente no conflito contra o eixo Alemanha-Itália-Japão. O resto entrou para a história, com uma narrativa que costuma retratar os americanos quase como “heróis”, ainda que tenham sido responsáveis pelos trágicos bombardeamentos atômicos das cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki. Mas existe um outro capítulo da relação entre EUA e Japão que Takei viveu PESSOALMENTE neste período e a respeito do qual mal encontrava menção nos livros de história.

Porque o pequeno George, ao lado do pai, da mãe, e dos dois irmãos mais novos, viveu anos de sua vida em um campo de concentração. Dentro dos Estados Unidos.

Pois é, pode parecer bizarro imaginar isso mas, depois de Pearl Harbor, a opinião pública norte-americana embarcou em uma fortíssima onda de ódio contra japoneses residindo no país e mesmo contra descendentes nascidos lá, legítimos cidadãos da tal terra da liberdade. Não importava. Bastava ter uma determinada fisionomia para ser considerado um potencial traidor, visto com desconfiança, alguém que poderia matar em nome de uma suposta “lealdade ao imperador japonês”. O sentimento se disseminou entre as autoridades e, pouco depois, o governo americano aprovaria a criação de campos de concentração, nos quais ficaram presos cerca de 120 mil nipo-americanos.

Famílias forçadas a abandonar suas casas, seus trabalhos, as economias de vidas inteiras, e enfiadas em conjuntos de galpões com estrutura mínima, cercados com arame farpado e vigiados por soldados fortemente armados, 24h ao dia.

Takei era muito jovem e, em alguns momentos, o jeito de contar a história, um ambiente de puro ódio sendo visto sob um olhar infantil que se apegava nas pequenas coisas para construir lembranças mais inocentes, lembra quase A Vida é Bela, filme do italiano Roberto Benigni. Enquanto os pais sofrem em silêncio, para não afetar as crianças, encarando doses cavalares de medo, angústia e desesperança, sem saber o que os aguarda no dia de amanhã, os pequenos estranham o clima militarizado, mas conseguem de alguma forma sorrir.

E entre tantas incertezas e declarações de ódio vindas do país que sempre foi a sua casa, George descobre os ruídos que chegam do outro lado da cerca e acredita piamente que são dinossauros, ao mesmo tempo em que arranca risos do pai por conta de um palavrão que os meninos mais velhos o fizeram falar para os guardas sem saber…

No fim, pequenos momentos como este ajudam a quebrar a tensão da história, que é contada sem rodeios por um adulto que, enquanto narrador, começa a ver outras camadas em suas doces lembranças infantis.

E é aí que o trabalho de Harmony Becker ajuda a dar ainda mais força à história. Ela entrega um estilo que, obviamente, conversa com os mangás (em especial na expressividade dos olhares), mas tenta ao máximo manter seus traços simples e econômicos. O resultado é ao mesmo tempo elegante, limpo, mas cheio de uma intensidade dramática que dá gosto de ver — e de ler.

Quando chegamos às páginas finais de Eles nos Chamavam de Inimigo, a jornada de Takei caminha no tempo, mostrando sua adolescência questionadora — por que seu pai nunca se levantou, nunca se rebelou contra esta situação toda? As respostas só surgiriam muito depois… Depois vem seu encontro com a arte, a fase adulta, o início do seu ativismo e o cruzamento de suas paixões, com uma peça de teatro que funciona exatamente como uma espécie de “exorcismo” sobre este momento. E então, o momento em que o governo resolve se desculpar, admitir o seu erro, enfim abaixando a cabeça DÉCADAS depois.

Eles nos Chamavam de Inimigo é tão urgente e atual não apenas por abordar um capítulo vergonhoso e pouquíssimo lembrado, que esfrega na cara dos “heróis da luta contra o nazismo” que eles também tiveram campos de concentração para chamar de seus, esqueletos no armário muito bem guardados. Mas igualmente porque vivemos uma fase, lá e cá, em que estas vozes conservadoras que vivem à base do medo ganham cada vez mais força. A luta do Black Lives Matter está aí, por exemplo, para mostrar que ainda existe muita gente nas ruas sendo chamada de “inimigo” por quem deveria defendê-lo apenas porque a cor de sua pele é diferente. Você consegue imaginar aquele sujeito ou o NOSSO sujeito pedindo desculpas por isso?

E os exilados de outros países sendo mantidos em gaiolas, crianças mantidas há meses afastadas dos pais, podem ser a prova de que a lembrança infantil de George Takei não está tão distante assim…

Eles nos Chamavam de Inimigo é mais uma lição. De como devemos aprender com o passado para não voltar a repeti-lo. Indefinidamente.

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