Escravidão sexual e barbáries do exército japonês marcam HQ impactante

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Escravidão sexual e barbáries do exército japonês marcam HQ impactante

Não adiantava insistir. Quando Ok-sun Lee dizia à mãe que gostaria de estudar, ouvia: “A gente nem tem o que comer e você vem com essa de escola?”. A fome era uma constante naquele vilarejo miserável no sul da península coreana. Certo dia, Ok-sun saiu de casa achando que finalmente realizaria o sonho. Foi enganada. Sua família a negociara com donos de um restaurante que explorariam a garota nos negócios. E a vida da jovem pioraria.

Em 1937 estourou entre a China e o Japão um conflito que cresceria e se arrastaria até o final da Segunda Guerra Mundial. Como de costume em tais cenários, episódios de horror absoluto tornaram-se corriqueiros. Japoneses assassinavam inimigos em simples treinos de tiro e os decapitavam em competições; para economizar munição, enterravam chineses vivos. Ou tocavam fogo. Numa praça da cidade de Nanquim, nipônicos confinaram e incendiaram mais de mil civis do país vizinho.

Menciono as barbáries por essa perspectiva porque os militares japoneses estão no foco de “Grama”, HQ da sul-coreana Keum Suk Gendry-Kim que acaba de sair por aqui pela Pipoca & Nanquim – a tradução é de Jae HW. O livro foi publicado originalmente em 2017 na Coreia do Sul e logo começou a conquistar espaço pelo mundo, tanto que foi indicado a três categorias do Prêmio Eisner deste ano (incluindo “Melhor Roteirista e Artista” e “Melhor Trabalho Baseado em Fatos”).

Na obra que conhecemos a trajetória de Ok-sun Lee. Após ser vendida pelos pais, a garota foi sequestrada pelo Exército Imperial Japonês e feita de escrava sexual – ou “mulher de conforto”, maneira como coreanos se referem às centenas de milhares de vítimas de tal crime.

Confinada num ambiente insalubre ao lado de outras raptadas, Ok-sun era forçada a satisfazer os oficiais japoneses; chegava a ser abusada por até 40 soldados num final de semana. A turbulência psicológica e a bem retratada resiliência da escravizada pontuam a dura narrativa. Num dos momentos mais delicados de sua vida, Ok-sun engravida. Apesar de tudo, acaba por parir uma criança que é vendida tão logo vem ao mundo. “Eu nem tinha amamentado ela ainda… Eu nem vi o rosto da minha filha direito…”, chora a mãe, alvo de outra crueldade.

Ok-sun sobreviveu ao sequestro, à escravidão, à violência sexual e à guerra. Após sua libertação, no entanto, passou por outros tipos de sofrimento. Preconceito, descaso e abandono lhe acompanharam numa vida ainda atormentada pela fome e pela miséria. Mas Ok-sun nunca deixou de resistir, tanto que se transformou numa importante ativista na luta para que o Japão reconhecesse seus crimes e indenizasse as mulheres de conforto.

Com mais de 90 anos e vivendo num asilo para idosas que também sofreram nas mãos dos japoneses, é Ok-sun Lee quem conta a própria história para Keum Suk. A artista mostra talento no lido com o preto e branco e, em certas passagens, utiliza de forma admirável os traços para compor o perfil psicológico das personagens. Da boa contextualização social, surgem traços como a servidão de trabalhadores rurais, aspecto que, numa improvável conexão, remete a “Torto Arado”, de Itamar Vieira Junior (Todavia), romances dos mais importantes de nossa literatura recente.

“Grama” se desenvolve com idas e vindas no tempo, com a vida da protagonista intercalada por momentos no qual a quadrinista se mostra nas entrevistas e em andanças para pesquisas de campo. Empregado em “Maus”, de Art Spiegelman (Quadrinhos na Cia), clássico dos quadrinhos e representação artística incontornável quando falamos sobre relatos de sobreviventes de guerra, o recurso virou uma forma desgastada de mostrar os bastidores da obra e de expor os conflitos autorais para conferir complexidade à narrativa.

Em todo caso, esse porém não tira a força ou diminui o tamanho de “Grama”, livro que merece espaço entre as grandes obras sobre a Segunda Guerra Mundial e sobre as atrocidades que seres humanos cometem contra seus semelhantes.

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