Biscoito chinês da sorte é cercado de histórias e até “briga” por origem

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Biscoito chinês da sorte é cercado de histórias e até

Sabe aquele biscoitinho da sorte, que você ganha quando come algum prato em um restaurante chinês? Ele tem uma massa sequinha, é oco por dentro, e assim que você o abre com os dentes, salta em papel uma mensagem de boas energias. Ele não é apenas saboroso, como carrega dentro de seu interior provérbios com lições de vida.

Existem histórias que contam da sua origem ser a China, outras no Japão e algumas a de que seria em São Francisco, nos Estados Unidos.

O fato é que, independente de história, produto que deu certo ou jogada de marketing, o biscoito da sorte é um preparo que faz parte do costume ocidental em restaurantes orientais e que faz sucesso como entretenimento e esperança para os clientes mais assíduos”, lembra César Almada, docente da área de gastronomia do Senac São Paulo

Chineses contra os mongóis

Uma das lendas mais tradicionais, relata que o biscoito da sorte tem origem no território chinês, há mais de 800 anos, no século 12.

Nessa época, a região era dominada pelos mongóis, e esses sempre em guerras com os chineses, procuravam uma maneira de se comunicar para expulsar os invasores.

Produção de biscoito da sorte

Assim, os chineses, sabendo que os mongóis detestavam um doce específico, tiveram a ideia de colocar mensagens dentro de um típico bolo chinês, que tinha o formato de meia lua. “Dessa forma, eles conseguiram se comunicar e obter sucesso na expulsão dos mongóis do território, e assim formaram a base da dinastia Ming”, conta César.

Anos se passaram, e a ideia de enviar mensagens dentro de bolos e doces ganhou força dentro da cultura chinesa. Desta vez criaram o bolo da vitória, que carregava mensagens positivas em seu interior.

Com o passar do tempo, o biscoito chinês perdeu a popularidade na China, ele é mais visto nas festas de ano novo chinês. Por outro lado, ganhou muito espaço no Ocidente, e nos templos budistas japoneses.

De terras chinesas para os templos budistas japoneses

Fushimi Inari Taisha, em Kyoto Imagem: Getty Images

Desde o século 19, alguns comerciantes japoneses começaram a vender um biscoito da sorte chamado omikuji senbei ou tsujiura suzu, em uma pequena região da cidade de Kyoto, no Japão, conhecida como Fukakusa.

Nesse local, existe um templo budista chamado Fushimi Inari Taisha, que atrai milhares de peregrinos com a finalidade de tocar dois sinos grandes e pedir saúde e boa sorte.

Apesar de famosos, os biscoitos não eram comuns em todo o Japão, e permaneceram por muito tempo como uma especialidade regional comum aos entornos dos santuários”, lembra César.

As mensagens presentes no interior dos biscoitos têm uma relação direta com as presentes nos templos budistas japoneses, mas para entendê-las é importante compreender que o conceito de sorte dos orientais carregam em suas culturas, se diferenciam dos nossos.

“Tendo isso em vista, a sorte para os orientais, pode contemplar tanto uma frase boa, quanto ambígua ou ruim. No caso da influência japonesa, o omikuji é a sorte, que pode ser um aforismo ou uma profecia vaga. Portanto, é comum nos templos budistas e shinto no Japão, as sortes serem colocadas em papéis desde 1800 e os peregrinos as sorteiam”, exemplifica o docente de gastronomia.

Quando a sorte não é boa, o papel deve ser amarrado a um galho de árvore ou nas grades dos templos do santuário.

Lendas chinesas à parte

Biscoito da sorte Imagem: Getty Images/iStockphoto

As comprovações reais sobre o biscoito chinês da sorte, no entanto, dão conta de sua origem no Japão e não na China em fontes documentais que datam de 1878.

Esse material foi descoberto pela pesquisadora Yasuko Nakamachi, do Instituto de Estudos de Cultura Folclórica Japonesa.

Porém, o biscoito chinês da sorte que conhecemos no Brasil, não é exatamente o japonês e nem o chinês e sim o que foi introduzido em um restaurante em São Francisco, nos Estados Unidos, para atrair clientes para consumir o chá japonês, acompanhado do biscoito chinês da sorte.

A ideia surgiu com Makoto Hagiwara, um japonês que gerenciou a rede Japanese Tea Garden, e que decidiu colocar os senbei no cardápio da rede, usando mensagens inspiradoras, por volta de 1909. Para fazer isso, tercerizou a produção de senbei com a padaria Benkyodo.

Com o passar do tempo, os biscoitos se tornaram populares, e os restaurantes chineses os venderam em suas redes. Só na década de 40, eles começaram a serem relacionados à culinária chinesa.

A virada do biscoito

Quando ocorreram as guerras dos Estados Unidos contra o Japão em 1942, as comunidades japonesas ficaram reclusas em seus centros, e os chineses tiveram a sua sorte virada.

Antes da guerra, a cultura chinesa era marginalizada, porém no período de racionamento, tiveram a sua gastronomia valorizada, e assim a economia do bairro chinês em São Francisco, a Chinatown, ganhou destaque.

Chinatown, em San Francisco Imagem: Patricia Andrea Acosta Luna/ Pixabay

Entre 1941 a 1943, tudo o que os chineses produziam no local vendia, entre eles os biscoitos chineses da sorte, da Benkyodo, que agora tinha donos chineses. E assim, os biscoitos da sorte viveram o seu apogeu nos Estados Unidos.

“Nesse período de guerra, os restaurantes chineses se popularizaram. Os soldados de diferentes regiões chegavam em Chinatown e Los Angeles e apreciavam os biscoitos da sorte, e ao retornarem para suas casas, em outros lugares dos Estados Unidos, passaram a exigir os mesmos biscoitos. O que fez com que novas empresas, produtoras do biscoito, surgissem e as tradicionais crescessem ainda mais para atender a demanda que se multiplicou”, conta César.

Para se ter uma ideia, a primeira fábrica criada para produzir somente biscoitos da sorte foi inaugurada em 1964, nos Estados Unidos.

No Brasil, a principal empresa é a Hakuna Matata, que fica em São Paulo, e existe desde 1999.

Biscoito da sorte traz mensagens positivas e alguns enigmas Imagem: Gundula Vogel/Pixabay

No biscoito chinês da sorte brasileiro, além da frase, é possível encontrar no verso, sugestões de números para a loteria. “As frases também são influenciadas pelo IChing e os números são gerados por combinações feitas manualmente ou programa de computador”, conta o docente do Senac.

Famas à parte?

Mas nem só de momentos bons vive o biscoito chinês da sorte, a sua volta existem muitas polêmicas. Uma delas é a briga judicial pela autoria do biscoito da sorte. Uma delas é datada do início do século 20, quando apareceram dois criadores diferentes.

Para acabar com o conflito, em 1983, o tribunal de assuntos históricos de São Francisco, concedeu definitivamente a criação para Hagiwara.

Uma curiosidade, é que na China, pouco se vê os biscoitos chineses. E mais, por lá eles também são conhecidos como biscoitos americanos.

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