‘Kinoko’

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O vocábulo kinoko, do léxico japonês, pertencia apenas ao reino vegetal e designava os cogumelos que sempre fizeram parte da dieta nipônica. Leia o artigo de Sonia Machiavelli.

O vocábulo kinoko, do léxico japonês, pertencia apenas ao reino vegetal e designava os cogumelos que sempre fizeram parte da dieta nipônica. Depois do dia 6 de agosto de 1945, assumiu também significado de apocalipse, em razão da associação entre a forma do fungo natural e o artefato bélico que aniquilou milhares de vidas num segundo. Fotos divulgadas pouco depois do ataque mostraram o desenho da detonação em Hiroshima: gigantesca nuvem de poeira cinza, marrom e negra encimada por um chapéu, monstruoso cogumelo atômico. 140 mil pessoas morreram na hora. Três dias depois outra bomba seria lançada sobre Nagasaki, matando 70 mil. O número de mortes e a destruição das cidades obrigaram os japoneses a se renderem no dia 14 daquele mês. O Japão nunca mais seria o mesmo. Nem o resto do mundo.

Neto de avós maternos e paternos que viveram em Hiroshima, embora no tempo da Segunda Guerra já tivessem migrado para o Brasil, o brasileiro Bony Deguchi, autor do livro de poemas “Kinoko”, recém-lançado em Franca pela Ribeirão Gráfica Editora, ouviu de seus ascendentes relatos sobre a Ilha Harmoniosa, aposto de Hiroshima, e Cabo Longo, descrição geográfica de Nagasaki, bem como o que sucedeu depois da hecatombe. Por exemplo, a tragédia pessoal dos hibakushas, os que sobreviveram.

Nas duas páginas de seu texto de apresentação, Boni Deguchi comenta que “após 78 anos da catástrofe japonesa, calcula-se que os hibakushas são em torno de 145 mil pessoas.” Grande parte delas vítimas de preconceito, segregação, ignorância dos que imaginam que os efeitos da bomba sobre os corpos das vítimas sejam contagiosos ou hereditários. Este deve ter sido um dos elementos que inquietaram desde sempre a mente de Deguchi.

Apesar da vontade de escrever sobre o assunto, por mais de 40 anos o poeta manteve adormecida, como diz, a ação de levar para as palavras o “tema hodierno da guerra (…) e reflexões sobre as consequências dos acontecimentos no fatídico mês de agosto de 1945.” Foi só há pouco que, transferindo-se de São Paulo para Franca, a fim de ficar próximo da filha universitária, encontrou-se com o então presidente da Academia Francana de Letras, José Lourenço Alves, e com os acadêmicos Regina Bastianini, que assina o prefácio, e Luiz Cruz de Oliveira, que orientou a organização dos textos. Revelado o interesse literário, o autor recebeu estímulo e ganhou ânimo para escrever o livro que, de fato, já havia mentalmente concebido a partir de suas lembranças, leituras e vivências.

A capa simbólica, lembrando o hinomaru, bandeira do Japão, tem círculo vermelho com centro em fogo sobre fundo branco onde só título e nome do autor estão grafados em negro. Uma reprodução do rio Ota, tão caro aos escritores japoneses, ilustra a contracapa: sobre as águas, lanternas flutuantes com mensagens de paz. O design da capa e da contracapa reflete o tema central do livro, que é um desejo de paz. Mas o subtítulo chama a atenção para o que não pode ser esquecido a fim de que nunca seja repetido: “Uma Tragédia Japonesa”.

Aristóteles definiu a tragédia, enquanto gênero dramático, como uma imitação das paixões e ações humanas, sobretudo as da infelicidade. Descreveu como elementos da constituição trágica a catarse (efeito de terror e piedade causado no espectador), a peripécia ( mutação de acontecimentos), o reconhecimento (passagem da ignorância para a consciência da realidade) e a verossimilhança da trama com o real. Quase todos esses elementos se encontram nos versos de Bony Deguchi, que optou por dividir o todo em três partes: o primeiro ato, intitulado “Hiroshima”; o segundo ato, “Nagasaki”; e o fechamento, constituído por haicais reunidos sob o título “Navio Negreiro”, explícita homenagem a Castro Alves.

Aliás, desde o primeiro ato Bony Deguchi desvela o alto grau da influência exercida sobre seu espírito pelo jovem poeta baiano que no século XIX insurgiu-se contra o tráfico de africanos para o Brasil e a crueldade a eles imposta pelos senhores brancos. E se escolhe Vinícius de Moraes para legendar a foto do Memorial da Paz em Hiroshima (“Mas oh não esqueçam/ da rosa da rosa/ Da rosa de Hiroshima/ A rosa hereditária/ A rosa radioativa”), os versos iniciais do primeiro ato de “Kinoko” (“Stamos em pleno mar- presos no espaço/E as nuvens escondem o porvir. E os ventos sopram… sopram/E nem sabemos onde devemos ir”) lembram diretamente os de Castro Alves (‘Stamos em pleno mar… Do firmamento/ Os astros saltam como espumas de ouro… /O mar em troca acende as ardentias, /— Constelações do líquido tesouro…”). Bony Deguchi revive em sua clave pessoal, portanto singular, de homem contemporâneo a indignação diante do horror, absurdo, angústia, ausência de empatia, caos que enodoaram a humanidade durante o terrível episódio da Segunda Guerra.

Drummond é outro poeta de eleição que inspira o autor a abrir o segundo ato, como o anterior formado por conjunto de seis estrofes que tem por título “Nagasaki”: “Mandei-te Little boy de urânio!/ Diz Truman…e propõe-te  mísera rendição/ Se recusares, Fat man de plutônio!”(…)“Suba! Charles! Suba! Bockscar te espera!/ Agosto foi nove… e Charles subiu…/Subiu também, Fat man…cilindro desta era”. São versos que nos lembram, ainda que de forma remota, os de CDA: “A bomba/ é uma flor de pânico apavorando os floricultores/ a bomba/ é o produto quintessente de um laboratório falido/ (…) A bomba/ não destruirá a vida/ O homem/ (tenho esperança) liquidará a bomba.”

Generoso para com seu leitor, o autor de “Kinoko- Uma Tragédia Japonesa” coloca no pé de algumas páginas termos que podem não ser conhecidos das gerações mais novas. Assim, explica quem foi Paul Warfield Tibbets, piloto americano que lançou a bomba sobre Hiroshima; a origem do nome do avião que este pilotava, Enola Gay, homenagem à sua mãe; Little boy, o código dado à bomba lançada sobre Hiroshima, e Fat man, a que destruiu Nagasaki. Ele nos lembra que o Projeto Manhattan foi um programa dos EUA para construção da bomba atômica; que Julius Oppenheimer, físico norte-americano, liderava a equipe de cientistas; que Tinian é o nome da ilha de onde partiram os aviões bombardeiros. Ah! E no meio das informações mais um dado pungente do grande desastre: Aoyama e Nenkai, pai e filho, encontravam-se no epicentro da primeira explosão:

“Hiroshima se foi, a escuridão ficou/ Pó, poeira e cinza do que sobreviveu/ Aoyama sem despedida… a bomba a dissipou/ Nenkai, onde estás? Grita de dor filho meu/ Nem cinzas… nem ossos… por onde vou?/ Foste a escolhida… tal qual russa roleta/ na procura de tantos outros… mas quem eu sou?”/ desfigurada, sem rosto…onde a minha face?/ Nossos jardins… nossa bandeira… o que restou?/ Não há paredes, casas… sequer muros ou muretas.”

“Kinoko” se fecha com seis conjuntos de haicais, forma de poesia japonesa criada no século VII e só muito depois aperfeiçoada por Bashô e outros.  Usualmente tematizando as estações do ano, no livro de Bony Deguchi os haicais fogem à regra e reafirmam o que foi expresso nas duas partes anteriores: “Quando cai a noite/ Dentro do navio negreiro/ Vem sempre o açoite”. Açoite é palavra com entradas importantes no corpo do livro. Em algum momento, diz o autor que “a síntese e a concisão jamais esconderam o chicote da reflexão que voa e ressoa na sociedade.”

Mas “Kinoko” não é um açoite. Embora impactante, é um convite para pensar sobre fatos históricos que abalaram o mundo e continuam a preocupar o homem deste século XXI. É por conta disso que o escritor assim se expressa: “Espero deixar ao leitor a necessidade de não esquecermos as tragédias e buscarmos meios de não as repetirmos.”

Diante do atual cenário da guerra que opõe Ucrânia e Rússia, “Kinoko” é também um alerta.  

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